Hoje:

Retorno a Contos, Memórias e Confissões

A Clínica do Dr. Calhigari

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Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

O repórter, um pouco tenso, dirigiu-se a um homem com um jaleco branco, de pé à entrada da Clínica, e que o acompanhara com o olhar, a observá-lo enquanto caminhava sobre a grama, e subia a larga escada de granito entre as duas altas colunas que ornamentavam a fachada imponente do edifício. Apresentou-se:

— Tenho uma entrevista marcada com o Dr. Calhigari, disse. — Por favor, onde posso encontrá-lo? – disse seu nome e o nome do jornal que o enviara.

— Terei muito prazer em atendê-lo, disse o homem estendendo-lhe a mão para um cumprimento, e puxando-o para o interior do hall. — Sou o Doutor Calhigari.

Um funcionário que copiava dados de fichas para um note-book sobre o balcão interrompeu por um instante o seu trabalho para olhar o recém-chegado.

—Quem é ele, Doutor? – perguntou.

— Fique tranquilo, Jason. É uma visita para mim.

— Ele precisa deixar a identidade aqui no balcão – disse o funcionário em tom autoritário.

— Ora Jason! Podemos dispensar esse pormenor, por favor... – ponderou o Doutor.

— Não há problema! – atalhou prontamente o repórter. Deixou sobre o balcão de mármore cinza sua carteira profissional. O funcionário lançou-lhe um olhar rápido, devolveu-a e, sem dar mais atenção aos dois, voltou a digitar em seu notebook.

— É um homem muito atento aos seus deveres, disse o Doutor como se procurasse desculpar a rudeza do funcionário, mas a apreciasse. Convidou o visitante a sentar-se com ele em um dos conjuntos de couro reservados a visitas, ao fundo do hall. O repórter entregou-lhe a carta de apresentação obtida pelo Jornal junto ao Conselho de Psiquiatria.

— Mas que coisa boa! – disse o Doutor. — Finalmente o Conselho permite que o público saiba o que é feito em minha Clínica. E o seu jornal é de grande circulação! Isto é ótimo!

— O senhor é psiquiatra ou psicólogo? – perguntou o repórter.

— Sou médico. Minha especialidade é a neurofisiologia – disse. — Mas, antes de percorrermos a clínica, o senhor aceitaria um café e um copo d’água? Vai ter que ver muita coisa.

O repórter agradeceu, e recusou. Certamente o homem do balcão, o tal Jason, teria que providenciar para que fosse servido, e este lhe pareceu ser um sujeito de maus bofes. Além disto, o funcionário se ausentara. Não havia ninguém na portaria naquele momento.

— Então venha comigo. Quero que conheça todas as dependências da clínica, e as importantes experiências científicas que estamos realizando aqui. – disse o Doutor pondo-se de pé.

Passaram a um corredor bastante longo, iluminado por lâmpadas tubulares fluorescentes dispostas a espaços em seu teto de gesso rebaixado . O repórter pediu permissão para fazer sua primeira anotação. Registrou a hora da visita e o fato de que as paredes eram de janelas envidraçadas, e podia-se ver o interior de salas e enfermarias. Por trás dos vidros havia persianas que podiam ser fechadas, quando necessário. Era, sem dúvida, uma área moderna incrustada no velho edifício.

O Doutor esperou que o jornalista concluísse suas anotações e, apontando para as primeiras janelas, disse:

— Esta é a enfermaria da memória.
Como se já esperasse que suas palavras deixariam o repórter intrigado, esclareceu logo:

—Este jovem que você vê deitado na cama, foi vítima de um desastre na estrada. Seu cérebro foi atingido, e destruída nele o núcleo de neurônios que lhe permitia reconhecer seus pais. Nós pretendemos restaurar esse ponto danificado transplantando alguns neurônios e promovendo a ligação cirúrgica deles com outros pontos não afetados pelo acidente, em que estejam preservadas lembranças mais antigas de seus pais.

O repórter taquigrafou rapidamente uma anotação, enquanto murmurava exclamações de surpresa. Uma enfermeira passou por eles sorrindo, desviando-se do Doutor como a fugir de receber uma palmadinha no traseiro. Não trocaram palavras, apenas sorrisos, o que pareceu ao repórter sinal de certa cumplicidade. Buscando trazer  o ruborizado doutor de volta ao assunto, indagou:

— Como identificarão os pontos onde estão essas imagens dos pais que o paciente vê, mas não reconhece?

— O método que desenvolvemos provou que o filósofo está certo, quando diz que cada pensamento, ou imagem, gera um sentimento que lhe fica vinculado. Ora, de acordo com o mesmo filósofo, o sentimento é, necessariamente,  um fenômeno de base química, porque o elemento físico já responde pelo conceito configurado das coisas (*). Então mostramos ao paciente um retrato de seu pai ou de sua mãe e usamos o espectroscópio para identificar a substância química ligada aos sentimentos que a foto lhe desperta – apesar dele não se dar conta de que é a foto de seu pai. Em seguida, procuramos em seu cérebro outros pontos com a mesma química – correspondente à mesma emoção que ele teve ao ver a foto e, através de uma delicada cirurgia, fazemos as ligações necessárias para restaurar, no córtex cerebral, o conceito perdido de “pai”. O paciente então poderá reconhecer seu pai na foto e na vida real.

— Mas este tratamento deve sair muito caro para a família do paciente!

— Ficará mais barato quando se tornar rotina. Somos pioneiros. Este é um campo de grande importância social, pois os pais se desesperam quando um filho passa a tratá-los como estranhos. É um grande drama familiar.

Quando terminou mais aquela anotação, o repórter viu aproximar-se pelo corredor um homem de olhar solene, passos medidos, com a mão direita metida sob a camisa na altura do coração. Mas o homem desfez aquela pose para encarar o médico e indagar irritado:

— Não sabe da ordem de não deixar o pavilhão? Pensa que é melhor que os outros? Você é um grande médico, curou minhas frieiras – lembranças da minha campanha na Rússia –, mas ficou biruta... – tão biruta quanto todos os outros que estão no pavilhão sob o meu comando!

O Doutor interrompeu o outro com voz firme, enquanto apenas diminuía um pouco os passos:

— Napoleão! Volte para o seu quarto. Este é um amigo a quem estou mostrando as dependências da clínica.

— Ele vai ficar conosco?

— Ó, não. Ele é jornalista.
Deixando o homem parado, a recompor devagar sua pose napoleônica, os dois continuaram pelo corredor.

— Toda clínica de loucos tem um que pensa ser Napoleão. – disse o médico sorrindo. — Embora aqui seja uma clínica neurológica e não propriamente um hospício, temos uma ala onde alguns dementes estão sendo observados e estudados. Os mais mansos gozam de muita liberdade.

Ao dobrarem um corredor, o Doutor se deteve. Pareceu ao repórter que iria fazer nova revelação importante.

— Nesta ala está sendo conduzida a experiência mais avançada da Clínica, disse ele.

Acercando-se de uma das janelas, todas com as persianas semi-fechadas, continuou: —Pela fresta da persiana você poderá ver alguma coisa.

O repórter colou o nariz ao vidro para olhar por  entre as lâminas finas da persiana. Pode vislumbrar homens de branco a executar com cuidado procedimentos em que eram ajudados por duas enfermeiras uniformizadas. Dois pacientes, cada um em seu leito, estavam ligados por um cabo estreito. Pareceu-lhe tratar-se de uma simples transfusão de sangue. Ergueu os olhos para uma placa estreita no alto da porta ao lado. “Hematologia” estava escrito.

O Doutor acompanhou seu olhar e esclareceu:

—Essa placa está aí apenas para despistar, – disse. — Lembre-se de que, até aqui, nossas experiências eram secretas, você é o primeiro estranho a ter permissão para conhecê-las. O cabo que liga os dois pacientes não transporta sangue, mas contem um feixe de finíssimos cateteres que ligam, através das respectivas carótidas, o cérebro de um ao cérebro do outro. Este experimento, que é o nosso projeto mais arrojado, eu poderei lhe explicar enquanto tomarmos um refresco no bar.

Um dos lados do corredor se abria em uma área com mesinhas, onde algumas pessoas faziam um lanche. Sentaram-se a uma delas, e uma garçonete se aproximou. Saudou o Doutor com cordialidade e respeito, e lançou um olhar simpático ao repórter. Antes que ela dissesse qualquer coisa, o Doutor pediu duas laranjadas. Alguns segundos depois ambos tinham diante de si um copo alto com o suco de laranja.

Causou espécie ao reporter a escala das coisas servidas no bar; o copo grande com o refresco, e também os grandes sanduíches que alguns jovens comiam sentados a mesas próximas. O Café parecia um centro para reposição rápida de energias que as clínicas servem aos doadores voluntários de sangue.

Depois de um gole da laranjada, o repórter olhou inquisitivamente o médico, na expectativa da importante revelação prometida. “O cérebro de um em comunicação com o cérebro de outro, nunca se ouviu falar de tal coisa” – pensou. “Talvez o Doutor Calhigari estivesse louco, e devesse ser urgentemente internado em sua própria clínica”.

— Para ser breve, o que pretendemos é criar um homem com dois cérebros e, nesta primeira fase, estamos testando essa idéia, ligando os cérebros de duas pessoas. Os dois, funcionando em lugar de um só, nos dará um homem super inteligente. Imagine!

Os olhos do Diretor brilhavam, bem abertos, e pareciam úmidos de emoção, enquanto falava do experimento. O repórter, chocado com aquela idéia espantosa, de um homem com dois cérebros, perdeu a vontade de rabiscar notas no seu bloco. Porém, seu espírito de repórter foi aguçado, assumindo a direção do seu raciocínio. Viu o lado cômico da situação: um homem com dois cérebros!

— Suponho que fariam uma bolsa apropriada para o indivíduo carregar consigo seu segundo cérebro... - ironizou.

O doutor ignorou o tom irônico do comentário.

— Desnecessário! A pélvis humana tem espaço. É também uma armadura óssea bastante forte e protetora. E tem mais a vantagem de ter comunicação direta com o crâneo. Localizado na pélvis, o segundo cérebro poderá ser facilmente ligado ao primeiro, por meio de um novo cordão nervoso inserido na cavidade vertebral, acompanhando a medula espinhal.


*

O repórter estava sendo procurado por Jason, o funcionário da portaria. Quando este o viu, sentado à mesa do bar com o Doutor, sentou-se ao lado dele e abriu um envelope. Foi breve, certamente porque o preocupava estar longe do seu posto no hall.

― Dr. Calhigari lamenta não poder mais recebê-lo, porque o tempo que reservou para a entrevista se esgotou. Me desculpe! Eu não sabia que o senhor era o repórter que ele aguardava. Neste envelope estão as respostas às perguntas que o senhor lhe  fez por telefone e também o croquis do novo pavilhão. A notícia que ele julga mais  importante – e pede para o jornal sublinhar –, é que sessenta por cento do custo da obra virão de doações particulares.

—Mas... – gaguejou o repórter, levantando os olhos da folha de informações. Deu-se conta então de que o Doutor havia desaparecido.


Rubem Queiroz Cobra

(*) No capítulo 9 do livro Filosofia do Espírito, de Rubem Queiroz Cobra (1997).

Página lançada em 11-10-2012.

Direitos reservados.
 Para citar este texto:
Cobra, Rubem Q. - A Clínica do Dr. Calhigari. Site www.cobra.pages.nom.br, INTERNET, Brasília, 2010
("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de www.cobra.pages.nom.br).

 

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