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O Herói da Revolução Liberal de 1964

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Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

Desci as altas escadarias do Rosário e continuei pela Rua Trajano, estreita e de grande movimento de pedestres. Pouco antes da transversal Felipe Schimidt,  – a via de maior comercio da cidade–, deparei-me com os jardins ao fundo do Palácio do Governo e, do lado oposto, com o elegante Golden Café. Detive-me à sua porta, lançando um olhar para o seu interior.

Havia um longo balcão com vitrine iluminada, e variadas guloseimas expostas nas prateleiras de vidro. As paredes e o teto eram decoradas com madeira, ao estilo provençal. As mesas eram servidas por garçonetes com uniforme grená, e um luxo sóbrio dominava todo o ambiente.  Senhoras da sociedade, tendo na cadeira ao lado seus pacotes de compras, delongavam o Chá conversando amenidades, e alguns senhores, que ocupavam as mesas mais próximas da calçada, tomavam calmamente o seu café, liam alguma coisa ou olhavam distraidamente os passantes.

Todas as mesas, inclusive umas poucas debaixo de guarda-sóis do lado de fora, estavam ocupadas. Porém, um senhor solitário acenou-me de dentro, convidando-me para ocupar o assento vago em sua mesa.

A gentileza tornava inevitável uma conversa.

Fitando-me como um clínico que examinasse a  aparência do paciente, diagnosticou:

— És mineiro!

— E como o senhor sabe? – perguntei-lhe.

— Veja, – disse ele. — Eu servi em Minas; sou militar da Reserva. O mineiro tem rosto comprido, fala mansa, um jeito prudente de olhar, um modo cauteloso de se aproximar. É inconfundível.  Identifiquei-te logo que assomastes à entrada do Café, avaliando o ambiente, meio desconfiado; vi que eras mineiro, e não errei!

Meu anfitrião sorveu o último gole do seu chocolate mas não se foi. Prosseguiu, recordando seu passado:

— Um espetáculo do qual não me esqueço: os batalhões da Polícia de Minas desfilando em Brasília com grande garbo e ao som da sua banda, o povo a bater palmas com entusiasmo, aglomerado nas calçadas e no canteiro central da Esplanada dos Ministérios. Aquela tropa fora de Belo Horizonte em marcha forçada, em jipes e caminhões, armados com bazucas ante tanques, e entraram na cidade sem encontrar resistência das tropas fieis a João Goulart.

Fiz um aparte:

A Polícia mineira é corajosa, patriota, e tão capaz quanto as forças federais – disse eu, ufano.

Ah...Sim! – concordou o meu interlocutor, rindo do meu ufanismo. — Muitos mineiros se alistaram para combater os comunistas. Havia postos de recrutamento na cidade e centenas de civis estavam dispostos a seguir o governador Magalhães Pinto em uma guerra civil contra os comunistas. Em São Paulo o movimento civil foi encabeçado pelo governador Ademar de Barros e no Rio pelo governador Carlos Lacerda, este um ex-comunista que havia deixado o partido quando descobriu a falsidade das promessas socialistas.

— Lembro-me das caminhadas de multidões de mulheres em todas as capitais, rezando o terço, pedindo a Santa Maria proteção contra o c omunismo ateu e mataterialista que estava q um passo de dominar o país. Realmente, foi um movimento genuinamente popular.

— Era mais que justificável o medo da maioria dos brasileiros—  disse ele.  — Para o socialista, o povo quer sempre as coisas erradas: religião, propriedade privada, lucro, etc. que são contrárias à "Vontade Geral", que o mesmo povo tem, de progresso e bem estar social para todos. Uma elite de uns poucos intelectuais socialistas – escritores, jornalistas, artistas e professores – é que sabe como o povo deve ser governado para que a Vontade Geral de bem estar social se realize. Tudo é tomado ao povo e passa a ser propriedade do Estado.

— Foi o que disse o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, em sua obra "O Contrato Social".

.—  Positivo! – concordou o meu anfitrião. — Porém, os socialistas se valeram da revolta do povo francês contra a alta dos impostos, para impor sua ideologia e promover a chacina dos liberais franceses no regime do Terror. Pouco depois, Marx e Engels, com seu manifesto, deram aos socialistas um motivo revolucionário novo, bem mais prático e palpável que o liberté, égalité, fraternité dos socialistas franceses. Não mais os famintos contra a nobreza, mas os operários de todo o planeta contra seus patrões. O proletariado dominaria o mundo, seria abolida a propriedade privada, e feita a nacionalização dos bancos, dos bens da Igreja, , etc., etc. A cor vermelha do sangue foi adotada pelos socialistas como símbolo do seu espírito de luta.

— Acho que foi a comunização da Rússia que deu grande vigor ao comunismo, não foi assim?

— Lá a matança não poupou milhões de camponeses e nem o Czar e sua família.

Longe de alcançar um século, o comunismo cairia de podre, sem que ninguém balançasse sua árvore de intrigas, de falsas promessas, contrabando, espionagem, corrupção, e miséria – disse o meu companheiro de mesa, encontrando no que dissera motivos para uma risada de mofa.

— Na minha infância, havia uma janela bem na cabeceira da minha cama. Falava-se então das atrocidades cometidas pelos comunistas contra os católicos na Espanha. E eu estava em um internato de padres. Passei a dormir com a janela fechada com medo de um assalto noturno dos revolucionários.  Mais tarde, ingressei no Comando... – ele se conteve. Mas percebeu que não tinha como evitar completar a frase – de Caça aos Comunistas – disse.

Recostei-me mais confortavelmente em minha cadeira. . "Estava explicado", pensei.  Agora eu receava que ele fosse um fanático.

— Napoleão acabou com o socialismo na França. O "Napoleão" da Espanha foi o General Franco. Ele derrotou os vermelhos com o apoio dos alemães, e governou até que, passado o perigo, entregou o poder ao Rei.

Mas o Brasil também foi vítima das ações sangrentas dos comunistas. Aqui eles se tornaram os parasitas de todo movimento reivindicatório normal nas democracias. Emprestavam organização e agressividade a esses movimentos. Em outros não participaram, mas hoje contabilizam para si, como é o caso da Coluna Prestes, um grupo de militares revoltados contra o presidente da República. Prestes não era comunista, mas aderiu a esse movimento quando, exilado  em Buenos Aires, depois da dispersão da sua coluna, um amigo lhe falou da doutrina marxista e lhe emprestou livros. Foi para a Rússia estudar o regime, e retornou acompanhado de meia dúzia de agentes russos – entre eles aquela que viria a ser sua mulher – incumbidos pelos soviéticos de promover a revolução Comunista no Brasil.

— Em 1935 Moscou determinou a Prestes, então o todo poderoso chefe do Partido Comunista Brasileiro, que era chegada a hora de deflagrar a revolução marxista que os levaria ao poder no País. Os brasileiros ficaram estarrecidos com as atrocidades cometidas pelos comunistas em poucos dias.

—  Mataram no Rio de Janeiro oficiais do exército enquanto dormiam – lembrei. — Foi uma outra Noite de São Bartolomeu!

— A partir de então as Forças Armadas mantiveram-se vigilantes. Getúlio Vargas, militar gaúcho, cercou-se de generais e de liberais competentes, meteu na prisão os líderes da sandice comunista, e esvaziou as bandeiras comunistas promulgando ele próprio as leis trabalhistas.

Uma graciosa garçonete chegou trazendo meu café. O ex-comandante pediu a conta. Protestei, argumentando que devia a ele o convite para ocupar a cadeira à sua mesa, gentileza que eu queria retribuir pagando nossas despesas. Diante da sua intransigente recusa, procurei reatar nossa conversa:

— Vargas meteu o próprio Prestes na cadeia.

— E Cuba foi influência russa?

— Penso que não. Em Cuba, os revolucionários que depuseram o corrupto ditador Fulgêncio Batista ficaram sem rumo, depois a vitória, e acharam como saída mais fácil adotar o comunismo, que lhes fornecia uma cartilha pronta sobre o que fazer. Fuzilamentos, trabalhos forçados nos canaviais, desaparecimento da indústria e do livre comercio, e tudo o mais que levou o povo cubano a sérias privações e sofrimento. Cuba, uma ilha a poucos quilômetros dos Estados Unidos, foi um presente que caiu no colo dos soviéticos, e logo se tornou uma base onde os comunistas pensaram em instalar foguetes apontados para alvos americanos. Tornou-se também um centro de treinamento e exportação de guerrilhas, e estreitou relações com os comunistas brasileiros na tentativa de dar aos vermelhos uma nova chance em nosso país.

Naquele instante passou ao longo do balcão de vidro iluminado um homem que se voltou em nossa direção e  saudou discretamente o ex-comandante, ao mesmo tempo que olhava para mim intrigado, como se não entendesse a razão da minha presença ali. O Comandante retribuiu com um aceno tranqüilizador.

— É um dos meus antigos comandados. Há um bingo no fundo do café e nos reunimos lá uma vez por semana. Isto ajuda a gente a se manter unida e alerta – disse o Comandante. Voltando ao assunto, afirmou:

— A segunda onda comunista no Brasil foi muito mais forte e perigosa, principalmente porque a Igreja se uniu a eles nas críticas ao regime Liberal

—  Apenas parte da Igreja, não? Obviamente estão em extremos opostos, o materialismo comunista e a religião.

— Moscow orientou os vermelhos a divulgarem o seguinte pensamento: "a idéia central do socialismo é a idéia central da própria mensagem de Jesus Cristo, que é resgatar os pobres e oprimidos"!

— O lobo vestiu-se de cordeiro!

— Mas vestir pele de cordeiro é uma especialidade dos socialistas. Iludidos por eles, vários jovens se tornaram marxistas. Continuaram católicos, porém por uma outra via que, apesar de liberticida, atéia, e assassina, pensavam ser um caminho imediato para socorrer os pobres e famintos: o comunismo! Sob essa ótica, um grupo de bispos de várias nacionalidades criou, reunidos secretamente em uma catacumba em Roma, o slogam da "opção pelos pobres"... com clara vinculação ao marxismo. Desde então o Comunismo materialista e ateu passou a ter, paradoxalmente,  uma Ala Religiosa, com sua teologia própria: a que chamaram "Teologia da Libertação".

— Conheço esse fato – comentei –, e sempre o considerei muito estranho, porque aqueles bispos deveriam pensar em converter os que estavam errados por explorarem os pobres, pressionando-os com os instrumentos da Igreja. Porém, em lugar de planejarem uma evangelização inteligente e poderosa, escolheram o caminho inócuo, que não deu resultado outro que o de tornar a situação dos pobres ainda pior, e criaram muitos mártires entre eles.

Então deu-se a revolução civil de 1964, que nasceu em Minas, sob o comando do governador Magalhães Pinto que articulou-se com o quaerto exército comandado pelo general Mourão Filho. A Polícia Militar Mineira seguiu de Belo Horizonte para o norte, para desalojar o presidente prócomunista João Goulart, e a tropa do General Mourão seguiu embarcada para o Sudeste onde se uniu ao Governador do Rio de Janeiro Carlos Lacerda. A hidra comunista foi dominada sem que uma gota sangue fosse derramada.

— E o glorioso Soixante-huitard!... Foi um desfile triunfal de baderneiros sob a liderança dos intelectuais socialistas em Paris. A baderna espalhou-se pelo mundo. A cópia brasileira incluiu, entre outros ataques dos estudantes de passeata, a destruição da biblioteca Central da Universidade de Brasília, porque em suas estantes havia livros doados pelos americanos. Na França foi novamente necessário – agora com mais urgência – buscar um "Napoleão" e este foi Charles de Gaulle!

— Aqui as forças de segurança recrudesceram sua ação repressora através do Ato Institucional n. 5.

— Era o que tinham que fazer. Acuados, os comunistas então mudaram de tática. A estratégia dos movimentos estudantis cedeu lugar a um   apelo à sentimentalidade do povo, através da literatura; do teatro e da música, com cenas e baladas cheias de  comovedores lamentos. Escritores e dramaturgos simpatizantes estavam encarregados da guerrilha nas letras –, que continua até hoje para escorar as "indenizações". Cantores e compositores ganharam dinheiro com os contratos para atrair povo aos comícios comunistas, como o das "diretas já". Este  foi assistido por mais de um milhão de pessoas devido 100% às notáveis atrações musicais apresentadas. Você pode dizer que estou mentindo?

Vencedores, se apoderaram de boa fatia do governo e, ousadamente,determinaram que fossem pagas, a várias centenas de pessoas, indenizações pela perseguição sofrida dos militares. Hoje é proibido aos comunistas falarem da etapa civil da revolução liberal de 64. A origem popular da revolução precisa ser deixada no esquecimento para serem lembrados e homenageados apenas  os que sofreram com  a repressão ao seu proseltismo marxista, A palavra "golpe" é a primeira do dicionário comunista, apesar de começar com a letra "g".   A participação militar que deu a vitória ao povo foi, segundo eles, um "golpe militar', saído do nada, sem nenhum motivo.

— Tenha cuidado! – aconselhei. E o que me dizes dessas chamadas "indenizações"?

 

—  O maior acinte feito ao nosso povo, aceito com a tolerância que mutas vezes é o preço da paz! Em 1964, colocar o Brasil sob o comando direto de Moscou, como um satélite soviético ultramarino, significava trair a Pátria. Não há dúvida de que a lista de nomes dos indenizados é uma verdadeira Lista de Schindler de traidores da Pátria daquela época.

 

— Já entraram todos, disse o ex-comandante. – Contara seus homens como se tivesse recuperado seu antigo posto de comando. Pagou a conta e fez menção de se levantar, mas eu o retive ainda por um instante:

— Então eu lhe pergunto. Se a história mostra aos próprios comunistas que eles nunca conseguiram fazer nada contra a injustiça social, senão igualar na injustiça todas as classes, sem melhorar as condições de vida do povo, afinal, o que ainda pretendem? Porque têm uma fé tão inabalável nesse regime?

— Primeiro porque é uma estrada aberta para entrar na política, e segundo, porque é uma doutrina riquíssima de atrativos! Satisfaz aos sentimentos de fraternidade e compaixão das pessoas sensíveis; parece inteligente e legítima, oferece miragens de poder aos que sonham com a glória, e aponta alvos para aqueles que têm necessidade de odiar alguma coisa. – Mas nunca dá certo porque condena o lucro, e o homem não cria nem produz sem lucro. Se não pode vender ou trocar livremente o seu produto, não lhe interessa plantar ou criar gado mais do que o necessário para o seu sustento e da sua família. O socialismo ficou marcado para o fracasso desde que nasceu, porque tira essa liberdade do homem. Quer que ele produza para receber em troca uma ficha de racionamento. Os planejadores socialistas querem que as pessoas se igualem em moradias coletivas, que percam sua individualidade, e obedeçam ao Estado sem nada questionar. Então, é claro que a má vontade se generaliza e haverá de derrotá-los.

 

Rubem Queiroz Cobra

 

 

NOTA: O Golden Café e o bingo não mais existem.

Página lançada em 31-03-2019..

 

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - O Heroi da Revolução Liberal de 1964. COBRA.PAGES.nom.br, Internet, Brasília, 2019.
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