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Madame de Stael

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Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

Dona de uma personalidade brilhante, escritora, poeta, ativista política, e feminista, Anne-Louise-Germaine, Madame Baronesa de Staël-Holstein, é geralmente reconhecida como a primeira filósofa política. Filha única de um rico banqueiro e de uma escritora suíça, recebeu dos pais sua paixão pelas letras e pela filosofia política, e um grande interesse pela coisa pública. Viveu em um período crítico da história da França, compreendendo os anos de Luís XVI, da Revolução Francesa, da era napoleônica, e da restauração da monarquia dos Bourbons com

Luís XVIII. Ela teve um importante papel na corrente minoritária de livres-pensadores moderados favoráveis a uma monarquia constitucional, mas que saíram derrotados tanto pela feroz maioria radical vitoriosa na Revolução, quanto por Napoleão e pelos restauradores da monarquia.

A perseguição que sofreu de Napoleão – ele representava a negação de todas as liberdades que ela defendia – fez dela uma figura mártir e heróica, que alentou a resistência ao imperador em Paris, na Suíça e em toda a Europa. Deixou livros e artigos, e também inúmeras cartas que escreveu aos seus amantes declarando suas frustrações e seus anseios de felicidade.

I - Vida

Infância e Juventude. Seu nome de solteira foi Anne-Louise-Germaine Necker (depois baronesa de Staël-Holstein, tratada mais comumente por Germaine ou Madame de Stael). Nasceu em Paris a 22 de Abril de 1766. Seu pai, Jacques Necker, por quem teve grande admiração e afeto, foi três vezes ministro de finanças de Louis XVI, rei da França de 1774 a 1793. Nascido em 1732, era filho de um professor de Direito Público em Genebra. Chegou jovem em Paris, onde ganhou experiência como empregado no banco de um amigo da família e depois fundou, com um sócio, o seu próprio banco, com estabelecimentos em Paris e Londres. Ficaram ricos financiando negócios de trigo e emprestando dinheiro para o governo. Membro do conselho de administração da Companhia das Indias desde 1764, ele salvou a histórica instituição de ir à falência. Em 1768, foi ministro da  Republica de Genebra junto ao rei de França.

Sua mãe, Madame Necker, nascida Suzanne Curchod em 1737, escritora suíça, era filha do pastor da Vila de Crassier, localidade vizinha a Genebra. Escritora, era uma mulher instruída e de bela figura. Filantropa, sua atividade filantrópica envolveu a fundação, em Paris, em 1778, do Hopital des Paroisses, atualmente Hospital Necker, na rua de Sèvres. Nesse hospital René Laennec inventou o estetoscópio e criou as regras da auscultação dos batimentos cardíacos. Madame Necker foi, também, uma voz contrária ao comércio de escravos que os franceses faziam entre a África e a América. O professor François Poirier, da Universidade de Paris (www.univ-paris13.fr, 2005), comenta que é quase desconhecida essa postura de Madame Necker, a qual fundou, em 19 de fevereiro de 1788, a Société des Amis des Noirs (Sociedade dos Amigos dos Pretos), e salienta que ela tinha por amigos os ante-escravagistas abade Guillaume Raynal, que em 1770 publicou Histoire philosophique et politique des établissemens et du commerce des Européens dans les deux Indes; Condorcet, autor do Réflexions sur l'esclavage des nègres, publicado em 1781, e Olympe de Gouges, cuja peça L'esclavage des noirs foi encenada em 1789 pela Comédie Française. Estava em Paris, como tutora do filho de Madame de Vermenoux quando conheceu o banqueiro Necker, com quem se casou em 1764.

Os encontros promovidos por Suzanne Necker em seu salão foram não apenas uma escola para a filha Germaine, futura Madame de Staël, mas também ajudaram seu marido a projetar-se e a se alçar a posições elevadas no governo. Às sextas-feiras, Madame Necker reunia  em sua residência, o Hotel Leblanc, grupos de livre-pensadores moderados e da nobreza parisiense, para debates em torno de questões sociais e políticas. O "hotel" – nome dado a edifícios públicos e grandes mansões urbanas em Paris – situava-se na Chaussée d'Antin, local que então era o centro da elegância  parisiense, próximo dos teatros, e das grandes avenidas, e onde aristocratas nobres, e empresários e comerciantes ricos, residiam em palácios criados pelos mais famosos arquitetos da época.

Germaine, desde menina,  habituou-se ao debate dos temas políticos. Tanto seu pai quanto sua mãe eram protestantes calvinistas convictos, de grande moral, espírito aberto e tolerante, e seus amigos eram todos de tendêcia liberal. Em sua casa, conheceu incontáveis figuras importantes como: Victor Riqueti, Marquês de Mirabeau, monarquista constitucionalista, um dos redatores da "Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão", documento básico da Revolução Francesa em 1789, autor de Explication du Tableau économique ("Explicação do Quadro econômico") de 1759, Théorie de l'impôt ("Teoria do imposto"), de 1760; e Philosophie rurale ("Filosofia rural"), de 1763; Denis Diderot, o editor da Enciclopédia; Georges Louis Leclerc, conde de Buffon, o grande naturalista; François Arnauld, Gabriel de Mably, conhecido também por Abbé de Mably, historiador, precursor do  socialismo comunitário; Jacques Henri Bernardin de Saint-Pierre, escritor, discípulo de Rousseau e precursor do romantismo, célebre por seu romance Paul et Virginie; Caroline-Stéphanie-Félicité du Crest de Saint-Aubin, condessa de Genlis, autora de várias obras sobre Educação; e Jean le Rond d'Alembert, entre outros. A esses encontros compareciam também alguns não famosos, que pertenciam ao círculo de velhos amigos suíços da família.

Uma criança precoce, Germaine interferia ela própria nos debates com apreciável sagacidade. Por influência de seu pai, um admirador de Montesquieu, tornou-se adepta da monarquia parlamentar segundo o modelo inglês. Recebeu da mãe uma educação muito esmerada e completa: aprende inglês, latim, dicção, música e dança; vai ao teatro e, ainda muito jovem, ela lê e escreve intensamente.

Em 1770, Jacques Necker adquiriu uma propriedade em Saint-Ouen. Sua mãe começou a corresponder-se com Voltaire, de quem seu pai era um admirador a ponto de encomendar uma estátua do filósofo. Lisonjeado, Voltaire enviou versos a Madame Necker e manteve com ela o contacto epistolar em seus últimos anos. Porém o artesão moldou o filósofo nu, e a estátua, considerada imoral pelo casal, não saiu do seu atelier.

Em 1772 seu pai afastou-se dos negócios, aos trinta e oito anos, com uma fortuna de sete a oito milhões de libras. Dedicou-se a escrever. Em 1773, ele ganhou o prêmio da Academia Francesa pela seu  enaltecimento do economista e ministro Jean-Baptiste Colbert.

Em 10 de maio de 1774, falece Louis XV, e começa o reinado de Louis XVI.

Em 1775 Necker publicou seu Essai sur la législation et le commerce des grains, no qual criticava a política de livre comércio do ministro Turgot.

Em 1776, o rei  Luís XVI demite Turgot e Necker, apesar de não ser nem católico nem francês, o substitui como Diretor do Tesouro Real. O novo ministro tem que enfrentar o problema das grandes despesas com a ajuda militar francesa aos colonos da América para sustentar sua independência, proclamada a  4 julho daquele ano, contra a Inglaterra. Germaine tinha dez anos e vê agora a casa freqüentada não mais apenas por intelectuais e amigos, mas também por políticos, ministros e diplomatas.  Neste ano, de abril a junho, acompanha os pais em uma viagem à Inglaterra.

Em julho de 1777 seu pai, com as reformas que fez, passa a designar-se Ministro (Diretor Geral) das Finanças. Em maio de 1781 ele publicou seu famoso Compte rendu au roi, um balanço financeiro da França que foi um sucesso de leitura. Foram vendidos 30 mil exemplares em apenas duas semanas. Este trabalho corajoso que revelou as despesas suntuárias da corte, lhe valeu o desagrado da família real e,  nesse mesmo ano, por influência da própria rainha Maria Antonieta, foi forçado a demitir-se, e substituído por Charles Alexandre de Calonn.

Germaine, uma grande admiradora de seu pai, lhe havia escrito uma carta de elogios sobre o Compte Rendu antes de completar 15 anos. O excesso de estudos e de excitamento intelectual, os amores impossíveis em sua adolescência, e as fortes emoções que vivia envolvida em todos os acontecimentos que atingiam sua família, conduzem-na a um esgotamento mental que exige repouso; levam-na para a bela residência da família em Saint-Ouen, então apenas uma pequena vila na margem direita do Sena, entre Saint Denis e Paris (não era o castelo de Ouen, o qual pertenceu ao duque de Gesvres, e cuja família o cedeu, em 1782, ao duque de Nivernais).

No verão de1783, Germaine acompanha os pais à Suíça. Ela recusa o projeto deles de casá-la com William Pitt, jovem e ambicioso político Inglês que em dezembro daquele ano, na idade de apenas 24 anos,  seria nomeado por George III o mais novo primeiro ministro da história da Inglaterra.  Não sendo William Pitt um homem rico, a escolha provavelmente tinha muito a ver com o ideal constitucionalista de Jacques Necker. Pitt era por reformas que aprimorassem o regime parlamentarista, evitando suborno eleitoral, permitindo a destituição de parlamentares corruptos, e aumentando a representação do povo no Parlamento. Entre os nobres franceses havia poucos protestantes e seus pais não queriam que ela se casasse com um católico.

Em 1784 seu pai escreveu, em Saint-Ouen, seu livro "De l'administration des finances de la France", no qual explicava e defendia sua política financeira. Em maio levou a família para seu castelo de Beaulieu, em Lousanne, e adquiriu o castelo de Coppet, 14 km a leste de Genebra, situado à margem do Lago Leman, com a pequena Vila de Coppet a separá-lo da beira do lago, e que seria, no futuro, a principal morada da família fora de Paris.

Em fins de setembro de 1785 a jovem Germaine aceita o segundo projeto: seu casamento com o representante da Suécia em Paris (ganharia depois status de embaixador), Barão Eric de Staël-Holstein, dezessete anos mais velho que ela. No dia 6 de janeiro de 1786 o contrato de casamento foi referendado em Versailles pela família real. A cerimônia foi celebrada na capela da Embaixada da Suécia, na rua de Bac, no dia 14 do mesmo mês . No dia 31 a nova baronesa foi apresentada aos nobres, os quais nunca viam com bons olhos – e ela percebeu isso – alguém de origem plebéia, ainda que muito rico, intrometer-se na corte.

O Salão em Paris. Uma vez casada, Anne-Louise-Germaine, agora Madame Baronesa de Staël, abre seu próprio salão em sua residência na rua de Bac. A formação política liberal recebida do pai faz que ela se cerque de uma geração nova. Muitos que comparecem aos encontros em sua casa haviam lutado na América pelas idéias liberais, como La Fayette, Noailles, Clermont-Tonnerre, ou eram escritores como Condorcet,  Louis de Narbonne (1755-1813) – sua primeira grande paixão –; Mathieu de Montmorency (1767-1826) e o bispo Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (un des signataires de la Constitution Française de 1791).

No ano do seu casamento ela inicia sua carreira literária com Sophie ou Les Sentiments secrets (Sofia, ou os sentimentos secretos) e começa, entre outros projetos, a escrever uma crítica ao pensamento de Jean-Jacques Rousseau.

Em abril de 1787,  seu pai Jacques Necker, devido às suas críticas à política real e às medidas liberais que adotou para transparência do orçamento, foi visto pela nobreza conservadora como defensor das causas da Revolução. Foi demitido e banido de Paris por carta régia, a um raio de 40 léguas da corte. Madame de Staël o acompanhou em várias moradas no perímetro desse círculo de Paris. Mas o rei suspendeu o castigo dois meses depois. No mesmo ano, em julho, nasceu a primeira filha de Germaine de Staël, batizada Gustavine em homenagem ao padrinho Gustavo III, rei da Suécia.. Também neste ano ela compôs sua tragédia Jane Gray.

A publicação da Constituição Americana de 17 setembro de 1787 causa grande sensação entre os constitucionalistas e republicanos parisienses.

Em 1788, Necker foi novamente nomeado Diretor Geral das Finanças, mas também ministro de estado e primeiro ministro de fato. Para solucionar a crise financeira, é convence o rei a convocar os Estados Gerais, um conselho constituído de nobres e de representantes do clero e do povo. A 3 de maio desse ano, o Parlamento publica «déclaration des droits de la Nation» e aprova a convocação dos Estados Gerais na esperança de que seus membros fizessem o rei manter os privilégios fiscais das classes altas. Em 7 de junho ocorre a revolta do povo contra o parlamento, em Grenoble.

Por pressão da opinião pública influenciada por políticos e intelectuais de suas relações, em 26 de agosto, seu pai é chamado de volta para substituir Loménie de Brienne no Ministério das Finanças. E ela, mal satisfeita com o casamento, começa, no outono, um caso de amor com o jovem conde de Narbonne, freqüentador do seu salão. No fim desse ano publicou, em poucos exemplares, sua crítica a Rousseau: Lettres sur le caractère et les ouvrages de J.-J. Rousseau (Cartas sobre o caráter e a obra de Rousseau). No livro ela aprova muitos dos pontos sustentados pelo filósofo, mas condena suas idéias sobre a mulher quanto ao seu papel social e à sua educação. Esta obra, que lhe trouxe fama como feminista, foi muitas vezes reeditada.

A Revolução. O ano de 1789 foi trágico para a baronesa. Em abril, faleceu a pequena Gustavine de Staël. Os acontecimentos políticos também são de um mau prenúncio.

Em maio ela assiste à procissão solene dos deputados, para a missa de abertura da Assembléia dos Estados Gerais. Em 9 de julho os Estados Gerais se proclamam uma Assembléia Nacional Constituinte, para redigir uma constituição calcada no modelo norte americano. Nesse mês seu pai é afastado do ministério mas o povo, vendo em sua demissão um sinal de endurecimento do governo contra as causas liberais, se amotina em Paris e exige a sua volta à direção das Finanças. O motim cresceu e agravou-se com a tomada da Bastilha, fato histórico que marcoui o 14 de julho, e ao qual ficou ligado o nome do ministro Necker, que chegou a ser considerado o salvador da França. A 30 de julho, acompanhado da filha, ele retornou a Paris, aclamado pelo povo em cada lugar por onde passava, culminando o entusiasmo popular com uma apoteose na Place de Grève, ou Place de l'Hotel de Ville (Praça do Palácio da Municipalidade). Mas nada podia fazer sem aumentar os impostos, medida impopular que terminou por desacreditá-lo. O rei, amedrontado,  evita dissolver a Assembléia. O irmão do rei, o Conde d'Artois, futuro rei Carlos X, percebe as dimensões dos acontecimentos e deixa a França, seguido de vários nobres entre eles o príncipe de Condé e Mme de Polignac.

Um comitê de revoltosos nomeia Bailly prefeito de Paris, e La Fayette comandante da guarda nacional, uma usurpação do que era antes administração direta do monarca. A revolta contra os altos impostos levam os camponeses a invadir os castelos e destruir os papeis que davam privilégios aos seus senhores; alguns foram atacados e mesmo massacrados. Na noite de 4 de agosto a Assembléia votou a abolição dos direitos senhoriais, para acalmar os camponeses. No dia 26 de agosto os deputados, inspirados nas idéias dos filósofos como Hobbes, Locke, Montesquieu e Rousseau, votam a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, com dezessete artigos, o artigo primeiro declarando que todos os homens nascem e permanecem livres e iguais em seus direitos. A 5 de outubro uma multidão de parisienses vai a Versailles revoltada com a oposição do rei à abolição dos direitos senhoriais. La Fayette convence o rei a se mudar para o Palácio das Tuileries, no centro de Paris, a fim de ficar mais perto do povo e dissipar sua desconfiança. O rei se muda no dia seguinte, 6 de outubro. A Assembléia Constituinte também se aloja em Paris, ao lado do palácio.

Apesar de todos os incidentes que a envolveram naquele ano, Madame de Staël publica Courte réplique à l’auteur d'une longue résponse. Tratava-se da sua resposta à crítica preconceituosa que recebeu de Louis-René Quentin, marquês de Richebourg-Champcenetz, com respeito às suas Lettres sobre Rousseau. O marquês comenta que a figura de Rousseau fora degradada, duvida da legitimidade de uma mulher pretender ser escritora, e pede uma "revirilização" do meio literário.

O ano de 1790 foi de grande efervescência política em toda a França. Em Paris multiplicam-se os jornais, os salões nobres tornam-se concorridos e formam-se clubes populares para debates políticos. O advogado Maximilien de Robespierre, deputado da Assembléia, torna-se presidente do clube dos Jacobinos em março. A Assembléia constituinte reforma em profundidade as instituições do país: divide a França em Departamentos, unifica pesos e medidas criando o sistema métrico, introduz o casamento e o divórcio civil, e suprime vários privilégios do clero e da nobreza que oneravam os cofres públicos, e confisca os bens da Igreja Católica. O estado manterá os estabelecimentos religiosos de interesse social, conforme uma Constituição Civil do Clero.

Madame Necker, publica Des inhumations précipitées. A 31 de agosto, nasce em Paris o filho de Germaine, Auguste, o qual, após a morte dela, haveria de editar sua obra completa. A 30 de setembro seu pai demitiu-se do cargo de ministro e foi cuidar de seus negócios na Suíça. Ela o visita periodicamente. Em outubro ela publicou, em pouquíssimos exemplares, Sophie ou les Sentiments secrets, e também Jane Gray, uma tragédia de fundo político. De 10 de outubro ao fim de novembro mora com os pais na Suíça. Passa o início de inverno, de 6 de dezembro 1790 a janeiro 1791  em Lousanne.

Em dezembro de 1791 seu amante Narbone é nomeado ministro da Guerra, em parte graças ao seu trabalho e influência.

Grande leitora de Rousseau, marcada pelas idéias do Iluminismo, Madame de Satël abraçou com entusiasmo o movimento revolucionário. Declarada a Revolução, ela orienta sua obra ainda mais para a política liberal. De janeiro a maio de 1791 seu salão em Paris é local de encontro dos políticos moderados. Em 16 de abril Madame de Staël publica, apócrifo, no periódico Les Indépendants, o seu primeiro artigo conhecido. Nele ela propugna por uma monarquia constitucional como a da Inglaterra, e advoga a educação do povo, que deve ter seus direitos políticos inteiramente respeitados. Os radicais monarquistas e republicanos a atacam.

Neste ano, Louis XVI usa o poder de veto para paralisar os trabalhos da Assembléia, em respeito à reprovação do papa às medidas adotadas. Em 21 de junho o rei  tenta fugir do país com sua família e é preso em Varennes. Em 1º de outubro entra em vigor a primeira Constituição francesa, inaugurando uma monarquia constitucional semelhante à da Inglaterra.

Em março de 1792 Narbone foi demitido; um dos últimos ministros de Louis XVI, pouco depois iria refugiar-se na Inglaterra. Em  20 de abril, a Assembléia Legislativa e o  rei Louis XVI declaram guerra à Alemanha e à Áustria. No verão a França é invadida pelos exércitos alemão e austríaco. Em 14 de julho ela assistiu, no Campo de Marte, a Festa da Federação e do terceiro aniversário da queda da Bastilha. Grande multidão de gente vinda de toda a França estava lá reunida; o Rei fez novo juramento de respeitar a Constituição; foi a última aparição pública da família real antes da decapitação do rei e da rainha. Ainda em julho Madame de Staël, Narbonne e Malouet ofereceram ao rei um plano de fuga, que a rainha recusou. Sua casa, a Embaixada da Suécia na rua de Bac, era território relativamente seguro, apesar do embaixador seu marido encontrar-se fora de Paris na ocasião. Lá ela escondeu e salvou no mês de agosto vários amigos que estavam condenados à execução.

Porém, a partir de então, sua própria situação torna-se insuportável. Em 2 de setembro do mesmo ano, milhares de prisioneiros são assassinados nas prisões, por instigação de Marat. Ela conta, conforme citação de Constance Hill em Juniper Hall (1894 - on-line em http://digital.library.upenn.edu) que, naquela data (estaria grávida do filho Albert), ao tentar sair de Paris, na condição de esposa do embaixador da Suécia, foi detida por uma multidão de revoltosos atraídos pelo luxo de sua carruagem puxada a seis cavalos e acompanhada de vários criados. Escapando em vários momentos de ser massacrada pela multidão enfurecida na Place de Grève, local de incontáveis decapitações durante a Revolução, e onde a 25 de abril daquele ano fora utilizada a Guilhotina em Paris pela primeira vez, ela foi levada pela polícia à presença do Conselho Comunal no Hotel de Ville. Salvou-a seu amigo, o escritor revolucionário Louis Pierre Manuel, procurador da Comuna de Paris e que, no momento em que ela era ouvida pelo Conselho presidido por Robespierre, declarou que se responsabilizaria por ela. Trancou-a em sua sala por seis horas, esperando  que escurecesse para levá-la em casa.

Da janela da sala em que estava confinada, Germaine viu um gendarme da Guarda Nacional proteger sua carruagem prestes a ser saqueada. Mais tarde o soldado entrou na sala com Manuel, e ela soube que ele era Antoine Joseph Santerre, cervejeiro, e fora uma das pessoas encarregadas de distribuir aos pobres, em época de fome, o trigo conseguido por Necker, seu pai, quando no poder. Ela deduziu que ele defendera seu carro e seus pertences na praça, em reconhecimento à bondade de seu pai.

Não encontrei quais argumentos Manuel apresentou a Robespierre, mas é possível que, por estar ela grávida - pois seu filho Albert nasceria pouco depois - não quisessem assassinar um inocente no ventre da mãe. Após as peripécias para obter, com a orientação de Manuel, um novo passaporte, ela consegue no dia seguinte, 3 de setembro, fugir para a Suíça. Manuel morreria na guilhotina em novembro do ano seguinte.

Uma nova Assembléia, chamada "Convenção" é eleita e se reúne pela primeira vez em 20 de setembro de 1792. Nesse dia, em Valmy, no Argonne, os prussianos foram derrotados pelos franceses e recuaram para a fronteira, e os austríacos batidos em Jemappes, na Bélgica, uma possessão austríaca. No dia seguinte, os deputados da Convenção proclamam a abolição da monarquia. Em 10 de outubro uma multidão invade o palácio das Tuileries e prende o rei e sua família na prisão de Temple.

2

 O Salão em Coppet. Germaine permanece em Coppet até outubro, e depois passa a Rolle, também à margem do lago Leman, poucos quilômetros ao norte de Nyon e de Coppet, onde a 20 de novembro de 1792 nasce o filho Albert. Em fins de dezembro, ela parte para a Inglaterra. Lá encontra, em janeiro, Narbonne e o bispo Talleyrand, Mathieu de Montmorency e outros refugiados políticos franceses, abrigados na mansão Juniper Hall, na vila de Mickleham, no Surrey, e entre eles causou geral consternação, a notícia de que, a 21 de janeiro de 1793, Louis XVI havia sido executado na guilhotina.

Em Juniper Hall ela viveu feliz em um ambiente a seu gosto, de debates políticos, comentários espirituosos e expectativa em relação ao que se passava em Paris. Trabalhou no De l’influence des passions, e conheceu a romancista Fanny Burney que passava férias nas vizinhanças e era sua admiradora. Mas a amizade com a escritora inglesa foi breve. O pai de Fanny Burney, influenciado pelos rumores que os monarquistas espalhavam a respeito da baronesa, principalmente sobre seus amantes, ficou preocupado e não consentiu na aproximação da filha com a ilustre refugiada francesa.  

A 11 março de 1793 começa na França a guerra civil com a revolta dos camponeses do oeste do país. A 28 março é constituído o Tribunal Revolucionário para julgar crimes de traição. A 6 abril  a Convenção confia o governo a um comitê chamado Comitê da Saúde Pública dominado por Robespierre. É o início da perseguição jacobina aos monarquistas e aos republicanos moderados que não aceitam a ditadura. No dia 31 maio e 2 de junho, os girondinos (monarquistas constitucionalistas e republicanos moderados) são presos para serem guilhotinados.

A estada de Madame de Staël na Inglaterra foi interrompida, para seu grande pesar, por um chamado de seu marido. O embaixador enviou um emissário sueco a Ostend, porto belga de movimentada ligação marítima com a Inglaterra, para esperar por ela e conduzi-la em segurança à Suíça. Depois de quatro meses em Londres, em Junho, encontrava-se de volta a Coppet. Conhece então o exilado Adolphe Ribbing, um dos conjurados para o assassinato de Gustave III, rei da Suécia, ocorrido em março de 1792. Seus pais estão em Lousanne. Ela começa a se interessar por ele. Aluga uma casa perto de Nyon, à margem do lago e pouco ao norte de Coppet, para lá esconder os refugiados do Terror, e também Ribbing, de quem se torna amante. A salvo na Suíça, em sua residência de Coppet, publica, no início de setembro do mesmo ano Réflexions sur le procès de la Reine (Reflexões sobre o processo da Rainha) onde toma a defesa da rainha humilhada e maltratada, acusada de crimes que não teria cometido. Nesta obra mostra seu inconformismo com as misérias da condição da mulher, ainda que seja uma rainha, e dirige a todas as mulheres uma emocionante defesa por aquela outra que arrastavam na lama antes de assassinarem.

No dia 13 de julho, Marat, um dos revolucionários mais violentos, é assassinado por uma jovem monarquista, Charlotte Corday. Em 17 de setembro, a Convenção vota uma lei que lhe permite prender, julgar e guilhotinar qualquer um. É o início do Terror, período em que seriam assassinados 20.000 cidadãos por motivos políticos.Os padres que mantêm fidelidade ao Papa são perseguidos e executados.A 16 de outubro a rainha Maria-Antonieta é guilhotinada.

Em 1794 sua mãe, Madame Necker, publica Réflexions sur le divorce. Ela própria publica, a 6 de abril, o romance Zulma, escrito havia algum tempo. A 15 de maio,  Madame Necker morre em Beaulieu. Então Germaine vem residir no castelo de Mézery, próximo a Lausanne, onde permanece até o fim de agosto, e faz fugirem da França vários amigos ameaçados de morte.

A 8 de junho de 1794 acontece a "Festa do Ente Supremo" sob o patrocínio de Robespierre, autor da idéia de uma religião única para os franceses, independente do Papa. A 27 de julho Robespierre e seus amigos são presos, e guilhotinados no dia seguinte. É o fim do Terror.  No outono, seu marido, que pode reabrir a embaixada em Paris, vem a Coppet.

Em fim de julho,  Narbonne chega a Mézery. A ruptura ocorrerá logo. Ribbing permanece em Mézery uma parte do verão e viaja em  7 de setembro. A 18 de setembro,  Germaine encontra pela primeira vez Benjamin Constant em casa de sua prima Constance Cazenove d’Arlens. Um intelectual à sua altura, escritor e político, porém um jogador sempre afundado em dívidas, Constant imediatamente lhe faz a corte, por algum tempo sem sucesso. Era um ano e meio mais novo, e ela termina por se apaixonar por ele. Viveriam  um relacionamento tumultuado, as mais das vezes grandemente frustrante para ela., mas que haveria de durar por 14 anos. Ao fim do ano, sai uma primeira edição, impressa na Suiça por François de Pange, do Réflexions sur la paix adressées à M. Pitt et aux Français.

A partir de janeiro de 1795 Constant vem residir em sua casa. Nesse ano, ocorre a publicação, em Paris, do seu Réflexions sur la paix interieure e do Recueil de morceaux détachés (três novelas e o Essai sur les fictions). Em maio ela vai para Paris com Benjamin Constant e reabre aos amigos o seu salão na rua de Bac. Lá se reúnem, entre outros, Destutt de Tracy e Cabanis. Com o seu pensamento mais afinado com a Revolução, o que ela agora defende é uma república liberal a exemplo dos Estados Unidos da América.

A Assembléia da Convenção reprime os motins monarquistas e anti-realistas, prepara uma nova Constituição e, a 1º de outubro de 1795, um novo regime, o Diretório, sucede à Convenção. No regime do Diretório, são  instalados dois Conselhos legislativos e um Diretório executivo composto de cinco pessoas. Em 15 de outubro, o Comitê de Saúde Pública, órgão executivo da Convenção, ordena a Madame de Staël deixar a França. A 22 de abril de 1796 o Diretório decretou sua prisão se ela fosse encontrada na França.

Em fins de julho está de volta a Coppet e, no início de outubro, ela publica De l’influence des passions. Sua obra mais aplaudida talvez tenha sido o De l’influence des passions sur le bonheur des individus et des nations, também deste ano, um tratado sobre a relação entre as paixões e a felicidade, considerado um importante marco do Romantismo Europeu. Ela adotou a nova corrente literária desenvolvida principalmente na Alemanha, lendo o velho crítico suíço K.V. von Bonstetten; Humboldt e, principalmente, os irmãos August Wilhelm e Friedrich von Schlegel, que estavam entre os Românticos alemães mais influentes.

Sua filha Albertine, nascida em 8 de junho de 1796, foi tida como filha de Constant. Seu casamento com o Barão de Staël-Holstein terminou com uma separação formal, devido aos grandes débitos do marido, contraídos no jogo, que se via compelida a resgatar. Neste ano, publicou Essai sur les fictions. Goethe apreciará essa obra a ponto de traduzi-la para o alemão no ano seguinte ao de sua publicação. O grande escritor passa a acompanhar com interesse os trabalhos de Madame de Staël, juntamente com Schiller e o cientista Wilhelm von Humboldt; este último será, a partir de então, um dos amigos mais caros para ela e insistiu que somente ela poderia tornar a cultura e o pensamento alemão conhecidos na França. Em  dezembro ela parte clandestinamente com seu amante Benjamim Constant para a França. Fica na casa dele em Hérivaux.

À frente do exercito francês, Napoleão conquista, naquele ano, o centro e o norte da Italia, que renderão para a França os recursos que ela desesperadamente necessita para recuperar suas finanças.

Napoleão Bonaparte. Em abril de 1797, Madame de Staël pode se reinstalar em Paris à rua de Bac. Em dezembro assiste a apresentação solene de Napoleão ao Diretório. Napoleão então lhe pareceu o líder liberal que poderia fazer triunfar a liberdade, o que a Revolução não havia conseguido realizar. Porém Napoleão sabia de suas idéias políticas, contrárias às suas, e a olhava como um perigo em potencial. Ainda em 1797 ela funda o Cercle constitutionnel com Constant, e outros políticos e intelectuais moderados. Ela influiu sobre Barras para que o amigo Talleryrand fosse nomeado ministro das Relações Exteriores; e em julho, ele foi nomeado para o ministério.

Em setembro do mesmo ano de 1797, ocorre o golpe de Estado. Germaine salva vários amigos ameaçados e se retira por algum tempo para Ormesson. A 18 de outubro de 1797, o général Bonaparte impõe paz à Áustria acabando com a antiga coalizão montada contra a França.

Em janeiro do ano seguinte mais uma vez retorna a Coppet. Neste mês Napoleão à frente do exército francês invade a região do Vaud, na Suíça. Genebra cai em poder dos franceses. Em junho Germaine retorna à França e se instala em Saint-Ouen, na mansão de seu pai.

Em 1798 a França é ameaçada por uma segunda coalizão de países liderada pela Inglaterra, com a liderança de William Pitt, o jovem. A França depende dos impostos cobrados nos países conquistados e não pode perder suas conquistas.

A fim de economizar com as despesas de casa, Germaine se instala com os seus na rua de Grenelle, em um Hôtel menos custoso que o da rua de Bac. Escreve Des circonstances actuelles qui peuvent achever la Révolution, um apelo à razão, para tirar a França da anarquia. Em outubro novamente retorna a Coppet, onde passa o inverno. Constant se separa dela e volta a Paris. Ela começa a escrever a obra De la littérature. Permanece em Coppet até abril, quando volta para Saint-Ouen. Retorna a Coppet em julho e lá permanecerá até o início de novembro do ano seguinte.

No início de 1799 a coalizão de países que combate a Revolução na França pretende colocar Louis XVIII no trono; e o papa quer cobrar indenização pelas perdas da Igreja em França. Os membros do Diretório que é liderado pelo abade Emmanuel-Joseph Siyès (1748-1836), vigário geral e chanceler da diocese de Chartres, eleito deputado dos Estados Gerais pela cidade de Paris, decidem confiar o país a um general.

O General Napoleão Bonaparte, que estivera combatendo os ingleses no Egito, desembarca em Fréjus, a 8 de outubro, não propriamente vitorioso, tendo deixado suas tropas no Egito impedidas de embarcar pela armada inglesa. De volta, encontrou a França mergulhada na crise. Sieyès, hábil político e membro do Diretório, planejou o golpe que poria fim ao regime revolucionário. Com a execução, em 9 e 10 novembro de 1799 (18 de Brumário) do golpe de Estado,  o regime do Diretório é transformado no Consulado, do qual o general Bonaparte é o Cônsul primeiro, e os dois outros, o advogado Pierre Roger Ducos (1754-1816) eleito para a Convenção pelo departamento de Landes – e que havia votado pela morte de Louis XVI –, e o abade Sieyes.

Após o golpe de 9 de novembro, que inaugura o Consulado, Germaine e seu grupo ainda vêem no Primeiro Consul um possível restaurador da República. No dia do golpe ela volta a Paris.

A 4 de dezembro, Constant é nomeado, por Sieyès, para o Tribunat dos Consuls de la République. No entanto, o primeiro discurso de Constant no Tribunat, nos primeiros dias de 1800, excita a cólera de Bonaparte, o Primeiro cônsul. O discurso fora preparado em casa de Germaine e ela encorajara Benjamim a pronunciá-lo. Em seu (Dez anos de exílio - Ed. do Projeto Gutenberg, 2005) diz que, se soubesse a perseguição que sofreria devido a esse envolvimento, talvez tivesse agido diferente. Napoleão também acusa Madame de Staël de haver deixado seu marido na miséria.

Apesar de sua frieza com respeito a Madame de Satël, Napoleão, desejando seu apoio, havia aceito seu amante Constant no Tribunat, e através do seu irmão Lucien Bonaparte, amigo de Germaine e freqüentador de sua casa, oferece pagar a Necker os 2 milhões que o Estado lhe devia. Quando, mais tarde, na campanha para conquista da Itália, ao passar por Genebra, procura um encontro com seu pai. O ex-ministro é simpático ao Cônsul, e sem tocar no assunto do que tinha a receber do Tesouro, apenas encarece ao Cônsul um bom relacionamento com sua filha. Em suas memórias Madame de Staël diz acreditar que esse apelo de seu pai garantiu que ela pudesse permanecer em Paris por algum tempo.

Em abril de 1800, Madame de Staël publica De la littérature dans ses rapports avec les institutions sociales. O livro foi um sucesso e fez o seu salão, vazio desde o atrito com Napoleão, novamente receber a elite de Paris. No entanto, o que diz nesse livro – que a literatura francesa precisava dos costumes de uma república para se regenerar –, desagrada o governo. Em maio, ela deixa Paris por passar, como de hábito, o verão com seu pai em Coppet. Lá Constant se junta a ela em julho; ela começa a redigir o Delphine e aprende alemão. Trabalha também a 2a. Edição do De la littérature, que publicará ainda em novembro, quando  retorna a Paris. Retoma sua rotina usual de encontros entre intelectuais e políticos em sua casa. Conforme relata, estrangeiros a tratavam com distinção, o corpo diplomático a visitava constantemente, e estas provas de prestígio eram sua salvaguarda.

Em 1801, em Coppet, ela conhece Sismondi, economista de Genebra, que virá a ser um de seus amigos mais fieis. Passa os primeiros meses de 1802 em Paris, e obtém sua separação do Barão de Staël, e retorna a Coppet.

O ex-marido falece em maio, em um albergue em Poligny, quando estava a caminho de Coppet. Em agosto seu pai publica o Dernières vues de politique et de finances, que aumentam o desfavor do pai e da filha perante o Primeiro Cônsul. Ao final do ano, em Dezembro, publica Delphine, a história de uma jovem inteligente, boa e correta, que perde todas as ilusões sobre os outros e sobre si mesma, enredo que a autora utiliza para passar suas idéias sociais, políticas e religiosas, e também sua visão da condição inferior da mulher mesmo nos países mais civilizados. De 2 de novembro a 3 de julho reside em Genebra.

Em fevereiro de 1803 e durante a primavera, devido à guerra com a Inglaterra, os ingleses residentes na França começam a ser presos, medida que atinge a vários de seus amigos. Irritado com a repercussão do Delphine, a 10 de fevereiro, o Primeiro Cônsul faz saber a Madame de Staël que ela devia se manter fora de Paris. Porém, em setembro, pensando que Bonaparte já se esquecera dela devido a estar muito ocupado com seus planos contra a Inglaterra, ela retorna à França; evitando Paris, se instala em uma pequena propriedade que possuía em Maffliers, a dez léguas da capital. Sua intenção era passar ali o inverno e receber alguns amigos, e mesmo aventurar-se até Paris para ir ao teatro e aos museus. Porém uma intriga dizendo que as estradas estavam cheias de gente que ia visitá-la, fez que o Primeiro Cônsul determinasse, no início de outubro, que ela deixasse a França. Em favor dela falaram os irmãos do Cônsul, Joseph e Lucien Bonaparte, e outros amigos, mas ninguém conseguiu demovê-lo. Uma tarde chegou ao sítio o comandante da guarda do Palácio de Versailles, vestido à paisana, com uma carta assinada por Bonaparte, determinando que ficasse a uma distância mínima de 40 léguas de Paris, sob pena de ser tratada como estrangeira e entregue à polícia. Acompanhada do policial, tolerante em lhe permitir algum tempo para se preparar, ela foi com os filhos a Paris, e ocupou por uns dias uma casa que havia alugado pouco antes. Joseph Bonaparte voltou a interceder por ela, novamente sem resultado. Por convite dele e de sua esposa, ela foi passar três dias com eles em sua casa de campo em Morfontaine, levando consigo o filho Auguste.

Viagem à Alemanha e à Itália. Decidiu, em lugar de voltar para a Suíça, seguir para a Alemanha, valendo-se de convites que havia recebido antes para visitar a Prússia. Joseph Bonaparte conseguiu-lhe várias cartas de recomendação para Berlim. Acompanhada de Benjamim Constant e de seus filhos, ela encetou viagem rumo a Alemanha. Pernoitaram em Chalons e no dia seguinte alcançaram Metz, onde se deteve por 15 dias para trocar cartas com seu pai, informando-o de seus problemas e de sua viagem. Em Metz, um pouco ao sul de Luxemburgo, Em Metz conhece a Charles de Villers (1765-1815), um grande conhecedor da Alemanha. Ela decide escrever a respeito da Alemanha cuja cultura era praticamente desconhecida para os parisienses.

Ela queria demonstrar a Napoleão Bonaparte que não era uma qualquer: A celebridade de seu pai e a dela própria era uma garantia de que seria recebida em todas as cortes. Mas, o que realmente a tornava importante era a hostilidade com que era tratada por Napoleão. Realmente, as portas se abrem para ela e as Cortes lhe dão tratamento digno de um Chefe de Estado. Em meados de novembro detém-se em Frankfurt, por motivo de doença da filha Albertine, então com cinco anos. Nessa ocasião troca cartas com o pai, que lhe envia opinião de médicos e receitas para a netinha. Recuperada a saúde da menina, prossegue seu itinerário para nordeste até Weimar, onde permanece de dezembro a fevereiro do ano seguinte, e onde Benjamim Constant a encontra e novamente se une a ela. Foi recebida com familiaridade na Corte de Weimar, visita com freqüência Goethe, Schiller e Wieland. Ela se surpreendeu com o grande progresso intelectual que descobriu em Weimar. Anotou os costumes, a psicologia do povo. Estudou a língua alemã para ler e traduzir ela mesma as obras dos escritores que conheceu, e de outros intelectuais que ainda encontraria no caminho, como o já famoso Auguste Wilhelm Schlegel que, junto com seu irmão, representavam o movimento intelectual Sturm und Drang.

Em março de 1804, ela passa de Weimar para Leipzig, de onde Constant retorna a Genebra. De lá, agora rumando para o Norte, chega a Berlim, onde permanece por quase um mês e meio (de 8 março a 19 de abril). É apresentada à corte, e freqüenta os salões berlinenses, onde conheceu Schlegel; ela o convence a ser o preceptor de seus filhos. Mas seu cicerone na Alemanha foi um jovem inglês estudante em Jena., Henry Crabb Robinson.

Seu pai falece em 9 de abril. Acreditando que ele estivesse apenas doente, ela deixa Berlim somente no dia 18 . Em quatro dias chega a Weimar, onde é informada do falecimento do pai e encontra Benjamim que viera confortá-la.

A 19 de maio chega a Coppet, onde permanece até 1 de agosto. Lá Germaine se recusa a se casar com Benjamim Constant, para não perder o sobrenome Staël e o título correspondente. No outono, ela publica os Manuscrits de M. Necker, com uma introdução Du caractère de M. Necker et de sa vie privée. Passa de agosto a setembro em Genebra, e de setembro a novembro em Coppet.

Ainda de luto pela morte do pai, em dezembro, depois de alguns dias em Lyon, ela parte para a Itália com o preceptor Schlegel. Sismondi se juntará a eles no caminho e será seu guia na Itália. Passam por Turin, e o ano novo em Milão, onde reencontra o poeta Vincenzo Monti.

Em fevereiro de 1805, visita Roma e vai a Nápoles, onde é recebida com grande deferência pela rainha Carolina. Retorna a Roma onde permanece de março a maio; frequenta a sociedade romana e encontra o seu amigo o cientista e diplomata Wilhelm von Humboldt,  e flerta com um jovem diplomata português, dom Pedro de Souza, futuro duque de Palmella. Foi aplaudida no Capitólio pela Academia das Arcádias.

Em maio, fazendo seu percurso de volta, passa por Florença e Veneza. Em junho chega de volta a Milão, após a coroação de Napoleão como Rei da Itália. Em 12 dias chega a Coppet, onde passaria ainda sete anos de exílio. Passou um ano entre Coppet e Genebra. Em o Dix années d’exil ela expõe, com eloqüência, a luta desigual do indivíduo desarmado contra um poder tirânico.

Constant insiste em desposá-la, mas ela mais uma vez recusa. Reencontra Prosper de Barante, com o qual mantem uma ligação amorosa. Ela começa o romance Corinne. Em agosto do mesmo ano seu filho Auguste de Staël parte para Paris, afim de se preparar para a Escola Politécnica. Em agosto ela recebe em Coppet uma visita de François-René de Chateaubriand,  autor de Le génie du Christianisme (Paris, 1802). Ela compõe o drama Agar dans le désert. No inverno, ela e Constant se instalam em Genebra.

3

Em abril de 1806 Madame de Staël arrisca-se a ir à França, enquanto Napoleão fazia a guerra da Prússia e da Polônia.. Auguste cursava preparatórios para entrar na Escola Politécnica, - onde Napoleão impedirá que ele se matricule -, e ela desejava acompanhar seus estudos. Para tal necessitava estar a pouca distancia de Paris, violado o limite fixado para seu afastamento da capital. Instalou-se sucessivamente em Auxerre e Rouen e por último, com a conivência do amigo Fouchet, ficou, de fins de novembro a abril de 1807, a apenas doze léguas de Paris, no castelo d’Acosta, próximo a Meulan, onde conclui o Corinne. Constant então lê para ela o seu Adolphe. Ela se vê retratada pejorativamente no romance, e lhe faz uma cena violenta.

Ao retornar ao país, no início de 1807, Napoleão se irrita ao saber que Madame de Staël está novamente próxima de Paris, e ela recebe ordem de partir. Receosa, em abril ela volta para Coppet após passar clandestinamente alguns dias em Paris. É publicado em Paris ao fim de abril ou início de maio, o romance Corinne, ou l’ltalie, que alcança grande sucesso. A personagem Corina, meio italiana, meio inglesa, guia um lorde escocês pela Itália. Leva-o a conhecer os lugares históricos mais sagrados da cidade, tanto da república romana quanto do cristianismo, e os esplendores do Renascimento. O romance está ambientado também nos campos e nas vilas italianas. O personagem Oswald é acusado de franqueza e irresolução, resultante do abalo de suas posições patriarcais por estar submetido a uma mulher inteligente a quem ama e obedece.

O povo lê com interesse as aventuras de de Corinne e lorde Oswald. Mas o livro também levanta comentários jocosos e Constant se sente visado por artigos de críticos que vêm nas duas personagens a própria autora e seu amante.

O grupo de Coppet, no qual liberais e monarquista se misturam, reúne Constant, Juliette Récamier e vários escritores românticos, franceses, alemães, e de outros paises, que vêm confraternizar e trabalhar, escrever, encenar peças e traduzirem suas obras. Recebeu uma visita de alguns meses do  Príncipe Augustus da Prússia. No outono ela escreve o drama Geneviève de Brabant. O preceptor Schlegel publica Comparaison entre la Phèdre d’Euripide et celle de Racine, obra que levanta polêmica na imprensa.

Em dezembro de 1807 viajou para passar um ano em Viena, na corte do Príncipe de Ligne. Enquanto está em Viena, Napoleão concede uma audiência, em Chambéry, a seu filho Auguste de Staël. Ele pede inutilmente ao imperador permissão para a mãe voltar a residir em Paris.

O inverno desse ano é brilhante e festivo para ela, em meio à sociedade vienense. Freqüenta o teatro e se liga ao Marechal de Campo Conde Maurice O’Donnell, de 27 anos, filho do Ministro das Finanças da Áustria, caso que termina ao fim do verão. Vê muito ao príncipe de Ligne e trabalha com ele em uma antologia de textos. O preceptor Schlegel. dá um curso de literatura dramática. Em 22 de maio ela deixa Viena. Por volta de 6 de julho já está em Coppet e começa a escrever o De l’Allemagne. ( filhilho do .

Recebe em Outubro e novembro a Voght, o filantropo, e Oehlenschläger e Zacharias Werner, dramaturgos. Ela encena sua peça La Sunamite. Em fins de novembro ela se instala em Genève. Em meiados de dezembro ela encena sua comédia La Signora Fantastici.

Em 1809, passa o inverno em Coppet. No início de fevereiro, publica com grande sucesso as Lettres et pensées du prince de Ligne. Instala-se de volta em Coppet no fim de abril, para passar o verão. É visitada por Charlotte de Hardenberg, que lhe revela seu casamento secreto com Benjamim Constant, ocorrido em junho do ano anterior, um golpe emocional para ela, mas concorda que o segredo seja mantido.

Em abril de 1810, tendo terminado os três volumes do De l'Alemagne, ela desejou supervisionar a impressão da obra, apesar de ter que violar o limite que lhe fora imposto de 40 léguas de Paris. Ela consegue instalar-se nas vizinhanças de Blois, no antigo castelo de Chaumont-sur-Loire, onde havia residido Catherine de Medicis. O proprietário, Monsieur Le Ray, amigo da família, achava-se em viagem aos Estados Unidos. Lá recebe numerosos amigos, inclusive Constant. Dá início à impressão do De l’Allemagne. Com esta nova obra, que ela havia começado a redigir em 1808 e termina em 1810, queria que os franceses aprendessem tudo sobre a Alemanha: aspectos físicos e culturais, e a sua história. É um estudo profundo dos hábitos alemães, sua literatura e arte, sua filosofia, moral, e religião, no qual ela revela aos seus contemporâneos a Alemanha do movimento Storm und Dran ocorrido de 1770 a 1780. Ela se interessa  pelo conde de Balk, mas a ligação terminará em outubro.

Com o retorno de viagem dos proprietários do castelo de Chaumont, Madame de Stael muda-se, em agosto, para uma casa de fazenda chamada Fosse, colocada à sua disposição por um generoso amigo. Morava na fazenda um soldado, que a serviu com grande prestimosidade. Sua grande amiga, Juliete Recamier, considerada uma das mais belas mulheres da França, veio visitá-la. Os camponeses e moradores da vila próxima vinham ver pelas janelas, curiosos, aquelas pessoas diferentes, que tocavam instrumentos, cantavam, declamavam. Certo dia, tendo ido ao precário teatro em Blois ver a representação da ópera Cinderella, os curiosos a seguiram pela rua, interessados em conhecer a nobre senhora exilada.

Nesse ambiente bucólico, ela termina, em setembro, de corrigir as provas do De l’Allemagne, encerrando 6 anos de trabalho. A obra é impressa, mas não chega a ser distribuída. Germaine fora visitar Mathieu de Montmorency, que possuia um castelo em meio à floresta, a cinco léguas de Blois. Na sua ausência, seus filhos e amigos na fazenda Fosse receberam a notícia de que os livros já impressos haviam sido confiscados na Editora e destruídos pela polícia. O filho Auguste foi avisá-la e ela, retornando a Fosse no dia seguinte, foi obrigada a entregar os manuscritos ao prefeito de Loir e Cher. Mas lhe passou apenas um rascunho, que ele aceitou, enquanto os originais haviam sido escondidos por Auguste. Sua indignação é grande, uma vez que a obra havia recebido aprovação da censura e permissão para ser impressa. Ela pensou em seguir para a Inglaterra, mas foi indiretamente impedida pelo Chefe de Polícia, que proibiu seu embarque por qualquer dos portos do Canal, onde navios americanos poderiam transportá-la para um porto inglês.

Como Corinne, ou De l'Italie, o romance Delphine, ou De l’Allemagne continha uma crítica implícita da política de Napoleão, e ele viu o perigo; considerou o livro anti-Francês. Porém, como os originais e muitos textos de prova escaparam à polícia, o livro pôde ser publicado na Inglaterra em 1813.

O Corinne pode ser considerado o resultado de seu passeio na Italia, assim como os frutos de sua visita à Alemanha estão contidos no De l’Allemagne. Em Delphine, ela se concentrou sobre a sociedade parisiense, seus salões, as dificuldades provocadas pela Revolução aos seus eventos intelectuais e festivos. Corinne, mulher de gênio, poetiza et artista, é ela também vítima de uma sociedade inglesa repressiva. A Inglaterra não é um bom modelo de liberdade social, tanto quanto é um modelo de política constitucionalista. E, como sempre, as mulheres são as primeiras vítimas. Mas a maior parte do romance se passa na Itália. 

Nos primeiros dias de outubro de 1810, ela parte para Coppet; estando a Suíça também sob o domínio de Napoleão, ela é permanente vigiada, e proibida de escrever e publicar qualquer coisa. Napoleão dá ordens, o Prefeito de Genebra se encarrega de cumprir.

Em maio de 1811, por prescrição médica, ela leva Albert, o filho mais novo, para banhos no balneário de Aix, na Savoia, a 20 léguas de Coppet. Ela comunicou ao prefeito essa ausência. Dez dias depois o prefeito enviou um emissário com uma ordem para ela retornar. Assim como fora proibida de embarcar em qualquer porto do canal da Mancha, agora estava proibida de alugar cavalos a qualquer postilhão, para assim impedi-la de deixar a França e viajar para a Inglaterra.

 Schlegel, que por oito anos fora preceptor dos filhos de Madame de Staël, recebe ordem de deixar Genebra e se afastar de Coppet. Seus filhos também foram proibidos de ir sem licença à França, uma punição por terem os dois rapazes tentado falar com Napoleão, em favor de sua mãe. O filho Auguste fica impedido de entrar para a Escola Politécnica.

Em novembro se instala em Genebra, para o inverno. Reencontra o jovem oficial "John" Rocca, de 23 anos, que fora ferido na guerra da Espanha e dispensado dos granadeiros, e que se apega a ele com paixão.

Em fins de fevereiro de 1811, Capelle substitui a Barante pai na prefeitura de Léman. A vigilância sobre ela redobra. O prefeito de Genebra comunica-lhe que não poderia se afastar de Coppet mais de duas léguas. Os amigos de Paris já não a visitavam, para não se indisporem com Napoleão. Ela se vê sem poder receber os amigos, cuidar convenientemente dos filhos, sem poder publicar suas idéias.  Por insistência do preceptor Schlegel, ela pensa em fugir.

No decorrer do ano, Madame de Staël começa a escrever o que seria mais tarde o livro Dix années d’exil; ao mesmo tempo escreve e publica o drama Sapho, les Réflexions sur le suicide, que lembra o personagem de Corina sobre o fundo trágico da mulher genial vítima do amor. Reúne, também,  elementos para um projeto a respeito de Ricardo Coração de Leão, em cuja vida é comumente buscada a origem das idéias liberais. Interessa-se também pela recem divulgada filosofia de Kant, que lhe parece capaz de nutrir a filosofia francesa.

Ela faz planos para fugir da Suíça. Deseja voltar à Inglaterra e examina o mapa da Europa procurando um itinerário que ficasse fora da jurisdição de Napoleão e não vê outra possibilidade senão passar pela Rússia, que já se achava na iminência de ser conquistada pelo Imperador, e de lá alcançar a Suécia, de onde poderia seguir para Londres. Havia o problema do passaporte: como requerer ao imperador Alexandre da Rússia sua entrada no país, sem que o embaixador francês naquele país tivesse notícia de sua viagem?

Um grande lenitivo foi Mathieu de Montmorency aceder em visitá-la. Apesar da proibição de deixar Coppet, ela foi recebê-lo em Orbd, e visita com ele vários pontos de interesse na Suíça, acompanhados do filho Auguste. Quando retornaram, o prefeito de Genebra censurou-a pela desobediência mas prometeu que não comunicaria o fato às autoridades em Paris.

Em 1811 casou secretamente com o oficial suíço, seu amante. Em abril do ano seguinte dá à luz secretamente em Coppet a Louis-Alphonse Rocca.

Os dias que o Senhor de Montmorency passou em Coppet custaram-lhe a perseguição do Imperador. O correio que levou a notícia de que ele estava em Coppet, voltou com a carta de seu banimento da França. Pouco depois o mesmo aconteceria a sua bela amiga Madame Recamier, que ao dirigir-se ao balneário de Aix na Saboia, pretendia deter-se em sua casa para uma visita. Apreensiva com essa notícia, ela enviou um mensageiro encontrar Madame Recamier no caminho para convencê-la a não passar por Coppet, mas a amiga insistiu e Madame de Stael chorou convulsivamente ao abraçá-la quando entrou no castelo. A amiga não escapou ao mesmo golpe que atingirá o Senhor de Montmorency: foi desterrada em razão de sua visita de poucas horas a Madame de Staël. Em agosto, o Senhor de Montmorency deixou Coppet, por insistência de sua família em distanciá-lo da baronesa.

A fuga. Dividida entre o desejo de escapar para a Inglaterra, os riscos da viagem e a possibilidade de nunca poder voltar a sua terra natal e seu circulo de amigos, ela perambulava pelo jardim do castelo imersa em pensamentos. Permanecer na Suiça, pais que estava subjugado pelo Imperador - como de resto quase toda a Europa -, era esperar que o círculo finalmente se fechasse inteiramente e ela terminasse presa ou fosse executada. E se perguntava o que seria de seus filhos se tal acontecesse. Por outro lado, tinha recursos suficientes para a viagem, por longa e dispendiosa que fosse, e também para viver em Londres. Começou a se preparar secretamente para fugir, antes que a última rota de fuga se fechasse. E essa rota exigia uma longa volta pelos confins da Europa.

Rezou uma hora diante do túmulo de seu pai e então sentiu-se convencida da necessidade de partir. Em 23 de maio de 1812, no meio da tarde, deixou o castelo com os filhos, sem levar nenhuma bagagem. Os criados de nada sabiam. Avisou que voltaria à hora do jantar. O filho mais novo permaneceria em Coppet. O filho mais velho e o oficial Roca levavam nos bolsos o dinheiro necessário para os primeiros dias de viagem. Viajaram toda a noite e no dia seguinte, até uma casa de fazenda depois de Berna, onde havia combinado de entrar o preceptor Schlegel, que havia se oferecido para acompanhá-la na fuga.

Depois de acompanhá-la no primeiro dia de viagem, seu amante Roca retornou a Genebra para concluir alguns negócios e voltar a encontrá-la mais à frente.. Também despediu-se do filho mais velho, que estava com a grave responsabilidade de obter do embaixador da Áustria, para os fugitivos, em Berna,  os vistos para a entrada naquele país e retornaria a Coppet. O filho mais novo, Albert, deixaria o castelo para juntar-se à mãe em Viena levando seus criados e a carruagem própria para longas viagens. Somente esta segunda movimentação foi notada pela polícia, mas Madame de Stël já se encontrava fora de seu alcance.

Em  Insbruck visita o túmulo do Imperador Maximiliano. Continuando, chega a Salzburg, capital do bispado de mesmo nome, onde recebe a aterrorizante notícia de que um agente do governo francês havia indagado por uma carruagem vinda de Insbruck na qual viajavam uma senhora e sua filha, e estava na estrada para interceptá-la. Madame de Staël aterrorizada, combinou com Schelegel – igualmente alarmado – que buscaria um esconderijo na cidade, e que ele continuaria com sua filha para a Áustria. Caso fossem alcançados pelo agente, diriam que ela já se encontrava na Áustria e que iam se juntar a ela. Ela esperaria em Salzburg mais alguns dias e depois iria para a Áustria disfarçada de camponesa. Quando iam por em prática o plano, apareceu seu amante Roca na estalagem: era ele o agente! Ele se fizera passar por emissário do governo francês afim de ser atendido com mais rapidez na troca de cavalos e, seguindo por outro caminho, conseguiu chegar antes dela à fronteira da Áustria e inteirar-se de que a a passagem estaria aberta para ela. Imensamente aliviada e feliz, saiu a passear com a filha e os amigos, para conhecer a cidade. Aguardou na Abadia de Molk o filho Albert que deveria juntar-se a ela trazendo outro carro, os criados e sua bagagem.

A Áustria, com sua moeda desvalorizada e os altos impostos determinados por Napoleão, não era o mesmo país feliz que ela visitara quatro anos antes. Ela chegou em Viena a 6 de Junho, e logo solicitou ao embaixador russo um passaporte para a Rússia. Não teve a mesma recepção que da vez anterior em que estivera em Viena, porque os príncipes estavam em uma conferência convocada por Napoleão, em Dresden.

Os primeiros dez dias em Viena passaram desanuviados e apesar da ausência dos soberanos, que estavam... achou-se em meio a uma sociedade cujo modo de vida correspondia ao seu próprio refinamento. Porém a situação mudou depois que o chefe de polícia recebeu instruções a seu respeito: passou a ser vigiada de perto. Era seguida por espiões em qualquer lugar que fosse. Constrangida com aquele acossamento ostensivo, decidiu prosseguir viagem, sem receber os passaportes russos. Relata que deixou um de seus companheiros na capital austríaca, incumbido de alcançá-la mais à frente com os passaportes, assim que os recebesse.

Deteve-se por alguns dias em Brunn, capital da Moravia, e passando por Lanzut, chegou à fronteira russa em Brody. Por toda a Polônia, em cada posto de troca, sua carruagem era assediada por judeus que ofereciam objetos, mendigos barbudos e por soldados ou funcionários que inspecionavam o veículo e os passaportes dos viajantes. Havia em todos os postos policiais o aviso de que seus passos deveriam ser cuidadosamente vigiados. A polícia austríaca enviou também a descrição de Rocca a todos os postos ao longo do caminho com ordem pois havia ordem de prisão para ele devido a ser um militar francês e estar protegendo uma inimiga do Imperador - , e se fosse preso seria recambiado à França e, por ser um oficial, lá seria executado por traição. Ele passou a viajar em separado, disfarçado e com um nome falso.

4

Madame de Satël ansiava por encontrar na Polônia, em Lanzut, o príncipe Henry Lubomirska e sua esposa, os quais ela havia hospedado em Genebra por vários prazerosos dias. No início de julho chegou ao principado. A visita seria rápida, porque Napoleão havia declarado guerra à Rússia e o avanço do seu exército poderia cortar-lhe o caminho para o Báltico. Essa visita foi traumática. Foi obrigada a admitir a companhia de um policial insolente e grosseiro, e sua irritação foi tão grande que teve um ataque de histeria, e seu filho e e o preceptor Schlegel, ajudados pelos criados tiveram que tirá-la da carruagem e sentá-la à beira da estrada até recuperar-se. Seus sobressaltos não terminaram aí, porque seu amante, o oficial Roca, que viajava em separado e incógnito -já havia se antecipado a ela e, sem saber que ela estava acompanhada de um policial, veio recebê-la junto com o príncipe à entrada do castelo; poderia ter sido preso, se ela não lhe fizesse sinais para afastar-se. Quando entendeu toda a situação o príncipe não apenas aceitou à mesa o repugnante espião, como também proporcionou meios a Rocca de escapar sem ser notado.

Madame de Stael passou uma noite no castelo. O policial tinha ordens inclusive de dormir no mesmo quarto que ela, pois não devia perde-la de vista por um instante sequer. Mas renunciou a esse dever, que com certeza seria impedido por todos de cumprir. Não deu mais nenhum trabalho, depois que a secretária do príncipe fez que os criados o deixassem bêbado.

Apesar de extremamente abalada emocionalmente, Madame de Staël continuou sua viagem, passando por Leopol (Lemberg ou, em Polonês, Lwow), capital da Galicia (a Polônia ocupada pela Áustria, atual Ucrânia), onde obteve permissão para cruzar a fronteira russa (para a então Rússia kievana). Estava livre da perseguição a partir daquele dia que era exatamente 14 de julho, aniversário da Revolução Francesa.

A primeira pessoa com quem pôde conversar na Rússia foi um francês que havia sido funcionário do Banco de seu pai. Agora tratada com consideração e respeito, teve o oferecimento de um médico para ser seu intérprete. Foi informada de que a estrada para  Petersburg estava interrompida pelo avanço do exército francês em território russo e que teria que ir a Moscou para de lá seguir para aquela cidade, ponto de passagem para a Suécia.Seriam mais 200 léguas de viagem, e ela já havia percorrido 1.500. Atravessou a parte russa da Polônia. Em Kiev o grupo visitou catacumbas semelhantes às romanas. O governador da província cumulou os visitantes de gentilezas.

No restante do percurso até Moscou o seu cocheiro russo apressou os cavalos; a rapidez da viagem foi facilitada pelas planuras. Nos dias consumidos nesse trecho, anotou uma infinidade de detalhes a respeito da topografia, da agricultura, dos costumes, do comércio. Planuras de areia, florestas de bétulas, vilazinhas de casas de madeira separadas por grandes distâncias. Também cruzaram com tropas de cossacos com longas lanças nas mãos a caminho da frente de batalha. Em Orel e Toula foram tratados com grande hospitalidade. Foi recebida com apreço pelo governador da província e sua esposa. Para surpresa sua, por estar tão distante da França, pessoas de distinção vinham à estalagem em que estava para cumprimentá-la pela sua obra literária.

Encontrou Moscou em clima de preparação para a resistência às tropas invasoras de Napoleão. No início de agosto lhe foi permitido visitar o Kremlin. Conheceu o arsenal e os aposentos reais dos czares. Subiu ao topo da torre da catedral, de onde pode admirar toda a cidade. De Moscou seguiu, passando por Novogorod, para São Petersburgo, onde estava a família real.  Relata sua felicidade ao ver a bandeira inglesa em navios surtos no porto, para ela um símbolo de liberdade. Frente à sua casa havia uma estátua eqüestre de Pedro I. No dia seguinte à sua chegada recebeu o convite para jantar, de um dos mais ricos comerciantes de São Petersburgo.

Visitou a Igreja de Nossa Senhora de Casan, construída por Paulo I copiando a Igreja de São Pedro, em Roma. De lá foi ao convento de Santo Alexandre Newski. O ministro de assuntos estrangeiros da  Russia, Romanzow, dispensou-lhe muita atenção.O Conde de Orloff e esposa convidaram-na para passar um dia em sua ilha, onde estavam as residências de verão da nobreza e da própria família imperial. Foi recebida pelo Imperador e pela Imperatriz na residência imperial, e visitou a mãe do Imperador no palácio de Taurida. Em fins de agosto, no palácio do príncipe Narischkin participou de uma festa interminável, durante a qual o conde propôs um brinde aos exércitos unidos da Rússia e da Inglaterra e fez disparar canhões de sua artilharia ao momento do brinde. A primeiro de setembro E prestou homenagem a Catherine II visitando o palácio Czarskozelo, de magníficos jardins. Visitou o museu de história natural e o Instituto Santa Catarina, criado pela Imperatriz para a educação de moças, tanto da nobreza quanto do povo.

Em fins de setembro deixou Petersburg e seguiu por terra para Abo (em finlandês, Turku), antiga capital da Finlândia, antes do domínio russo (1809). Grande número de seus novos amigos vieram despedir-se dela, de Schlegel e de seus filhos.Durante o trajeto pela Finlândia dedicou-se a observar com a mesma acuidade e interesse a fisiografia - contrastando os rochedos e montanhas graníticas com as planuras e os pântanos da Rússia - o tipo físico da população e os costumes. Não havia castelos de nobres onde se hospedar: hospedava-se em casa de Pastores da Igreja, como era costume para os viajantes naquele país.

Em Abo embarcou para Stockholm. Foi-lhe de grande apoio o preceptor Schlegel, que tudo fez para dissipar seu horror de navegar entre as ondas gigantescas do Mar Báltico, em um frágil barco, em grande parte com ventos desfavoráveis que atrasaram a travessia. Passando pela ilha de Aland, chegaram a Stockholm, onde ela foi cercada de estima pela sua envergadura intelectual e de respeito por ser baronesa naquele país. Sua primeira preocupação foi utilizar as notas do seu diário de viagem e escrever grande parte do rascunho para o Dez anos de exílio, que pretendia publicar.

Passa quase um ano na capital sueca, de 24 setembro de1812 a junho de 1813. Começa a escrever a vida de seu pai, exaltando suas ações no governo, e narra os episódios dos dias negros da Revolução. Posteriormente ampliou o texto com uma síntese de suas próprias propostas de reforma, inspiradas no sistema político inglês, e alterou o título para Considérations sur les principaux Evénémens de la Revolution Française; mas não chegou a publicá-lo, tarefa de que se encarregaram seu filho e seu genro – o barão Auguste de Staël e o duque de Broglie.

Em janeiro de 1813 publica Réflexions sur le suicide, no qual ela condena algumas idéias que ela havia por muito tempo sustentado. A 18 de junho chega em Londres onde foi recebida com entusiasmo. Seu guia na Inglaterra foi Sir James Mackintosh, um editor Escocês. As observações que fez no país ela incluirá em seu livro Considerations sur Ia Révolution francaise, no qual abordará a vida e as idéias constitucionalistas de seu pai, e mostrará a Inglaterra como um modelo de sistema político para a França. Em Londres ela reencontra o futuro rei Louis XVIII em quem ela vê o homme capaz de realisar a Monarquia Constitutional na França. Porém percebe também a má influência que tem sobre o futuro monarca os arrogantes refugiados franceses que o cercam.

Pouco depois de chegar a Londres tem notícia de que o filho Albert, fora morto em um duelo, na Suécia.

O De l’Allemagne, proibido na França, é editado em francês, em Londres. Edita alguns novos trabalhos e outros mais antigos, que aguardavam publicação: Zulma e três novelas, e o seu Essai sur les fictions.

Em abril de 1814 ocorre a abdicação de Napoleão. Com a queda do Império ela pode retornar a Paris, e se instala em Clichy. Porém estava profundamente decepcionada com o fracasso da Revolução, o período napoleônico e o retorno iminente da monarquia.. Ela aceita os Bourbons a contragosto. Ela lamenta a adesão de Benjamim Constant, mas aprovará o Ato Adicional que ele redigiu é promulgado a 20 de abril. Já em maio reabre em  Paris o seu salão e volta a receber príncipes, ministros e generais. Providencia a tradução do livro Cours de littérature dramatique, do preceptor Schlegel, por Albertine Necker de Saussure, sua prima, e o publica. Porém, com o retorno imprevisto de Napoleão, durante os 100 dias em que consegue escapar aos ingleses e reassumir o governo, está obrigada a novamente deixar Paris. De 19 de julho a 30 de setembro se reinstala em Coppet onde recebe a solidariedade de inúmeros amigos, principalmente ingleses, também obrigados a fugir de Paris. Madame Récamier, hospedada em seu castelo, é cortejada apaixonadamente por Benjamim Constant.

A Restauração. Em setembro de 1815, Madame de Staël adere e apóia aos  Bourbons, após a aventura dos Cem-Dias de Napoleão e sua derrota pelos ingleses em Waterloo.

Em janeiro de 1816, está em Milão, e publica De l’esprit des traductions, e depois vai passar o resto do inverno em Pisa para cuidar de Rocca, que está muito doente. Em Piza, em fevereiro, é realizada a festa do casamento de sua filha Albertine com Achille-Léonce-Victor-Charles,  III Duque de Broglie (1785-1870), estadista liberal e diplomata, cujos pais foram prisioneiros durante o Terror. Seu pai foi guilhotinado em 1794, mas sua mãe havia conseguido escapar e fugir com os filhos para a Suíça. Para o verão daquele ano retorna  Coppet, onde Lord Byron, deixando a Inglaterra magoado com uma experiência matrimonial infeliz, foi encontrá-la. Uma sólida amizade desenvolveu-se entre a escritora e o poeta inglês.

Sua saúde estava declinando. Após a partida do amigo Bayron, ela retornou a Paris para passar o inverno onde encontrou muitos dos antigos monarquistas refugiados da Inglaterra e que não tinham simpatia por suas posições políticas. Apesar disso e da desconfiança com que foi recebida pela nobreza restaurada, ela reabriu seu salão, agora em sua nova casa à rua Royale, para encontro com intelectuais até a primavera.

Em fevereiro de 1817 ficou paralítica e presa ao leito, após um mal súbito durante um baile em casa do duque de Decazes. Em Abril sua saúde agravou-se. Faleceu em Paris na data significativa de 14 de Julho, em 1817, em uma casa onde os amigos se revezavam para assisti-la, na rua Maturins

Ao fundo de um bosque de faias ramadas, por trás do Castelo de Coppet, está o mausoléu em que repousam os restos mortais de Madame Necker, de seu marido e de sua filha Germaine. Ao tempo em que foram sepultados seus pais, eram duas cubas gêmeas de mármore cheias com aguardente de uva (espírito de vinho) em que estavam mergulhados os corpos; o mausoléu foi aberto para receber o sarcófago de sua filha, Germaine de Staël.

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II - Pensamento

Madame de Staël não apenas se engajou na luta dos pensadores iluministas de sua época contra a influência da Igreja, mas também trabalhou pela definição dos princípios do Liberalismo tanto na França como na Suíça. Tornou-se um elo entre os adeptos do liberalismo de antes e de depois da Revolução. Advogava a maior liberdade individual possível, e chamou absurda a idéia de proceder de Deus a autoridade entre os homens. Era favorável à desapropriação das terras da Igreja e à abolição de todos os privilégios dos religiosos, que tinha como inimigos da Revolução. Considerava a República uma forma política adequada apenas aos pequenos países, enquanto as grandes nações deveriam ser Monarquias Constitucionais, conforme o modelo inglês. Seu pensamento, tanto político quanto feminista, está expresso principalmente em seu livro Considérations sur les principaux événements de la Révolution française ("Considerações sobre os principais acontecimentos da Revolução francesa") em que mostra os resultados nefastos da Revolução e o retrocesso que impôs ao seu país.

Ela havia retomado em Londres uma idéia antiga: a de escrever um livro sobre a vida política de seu pai. Porém não finalizou onde termina a carreira dele, de homem público. Prosseguiu, elaborando uma crítica do Consulado, do Império, e do início da Restauração. Assim, o que seria apenas a biografia de seu pai, tornou-se no livro Considérations sur les principaux événements de la Révolution française, com a adição da história do grupo liberal que ela indiscutivelmente liderou. Aborda nele os três primeiros anos da Rev,olução, e comenta o desencanto provocado pelas atrocidades do Terror, o fracasso do Diretório, a tirania da era napoleônica e o retorno à monarquia, que via com desconfiança. Termina o livro com uma síntese de suas propostas, inspiradas no sistema político inglês.

Política. Em seu Des circonstances actuelles qui peuvent achever la Révolution, faz um apelo ao bom senso dos franceses para acabar com o terror e restaurar a paz por meio de uma República. Educada como liberal, apesar de estimar Rousseau ela prefere seguir o pensamento de Montesquieu e as idéias constitucionalistas de seu pai, o ministro Necker. Convencida de que o Terror e suas conseqüências eram um desvio da história, não aceitou que se apagassem as luzes do Iluminismo. Suas idéias sobre a liberdade lhe valeram perseguições do poder e lhe custaram muito caro inclusive com respeito a sua vida íntima. Em sua opinião, a arte da política está em direcionar a opinião pública para um objetivo e depois apoiar-se nela no momento certo.

Ela pede o respeito ao que chama “três elementos dados pela natureza”, a deliberação, a execução e a conservação, necessários para garantir aos cidadãos sua liberdade, fortuna e uso tranqüilo de suas faculdades, e os recompensar pelo seu trabalho.

Reconhece, embora minimize, que, devido a que os nobres apóiam o despotismo como salvaguarda de seus privilégios, esta pode ser uma razão contra uma Câmara dos Nobres (pares do reino)

Religião e Estado. A grande questão de sua época foi a separação entre o Estado e a Igreja, a extinção do poder do Segundo Estado constituído pelos clérigos (O Primeiro Estado eram os nobres, e o Terceiro Estado os homens comuns). A religião deveria ser apenas o culto íntimo, sem envolvimento de interesses políticos. E em sua opinião, o dia em que os franceses deixassem de unir o que Deus havia separado – a religião e a política –, apesar do clero perder o seu poder e os seus privilégios, a nação teria uma religiosidade mais autêntica e sincera. Ela se indigna com a doutrina do Direito Divino dos reis, expressa no famoso dogma: todo poder vem de Deus; e quem resiste ao poder resiste ao próprio Deus. Ela contra argumenta lembrando que nos evangelhos está escrito “dê a Deus o que é de Deus e dê a César o que é de César”, uma evidência de que Cristo desejava que a religião que ele anunciava fosse considerada inteiramente estranha à política. E cita mais o trecho: “meu reino não é deste mundo”. Esse falso direito, de governar sem limites de poder, resultava na opressão permanente do povo e na corrupção do caráter do cidadão que tinha que desenvolver artifícios, os mais abjetos e escusos, para se colocar a salvo da arbitrariedade do governo.

O cristianismo trouxe de fato a liberdade, a justiça aos oprimidos, o respeito pelos que sofrem, e a igualdade perante Deus, da qual a igualdade perante a Lei é apenas uma imagem imperfeita. Mas as formas de organização social não podem dizer respeito à religião senão quanto à manutenção da liberdade e da justiça para todos, e da moral de cada um; o resto pertence à ciência deste mundo.

A liberdade. Para ela, os adversários da liberdade em todos os países – salvo alguns trânsfugas de entre os intelectuais – em geral são aqueles inimigos do conhecimento e das idéias; a necessidade de um governo livre – a monarquia constitucional para os grandes países, e a república independente para os pequenos –, é tão evidente que ela não acredita que alguém possa não reconhecer esta verdade. Mas há aqueles que ficaram amedrontados com a liberdade trazida pela Revolução, e que havia resultado nos crimes perpetrados por seus líderes. Outros pensam que aceitar uma idéia filosófica, como a do amor à liberdade, implica tornar-se ateu. Há, ainda, os que consideram de mau gosto meter-se na política: dizem que o povo escolhe sempre mal. 

 A felicidade. No De l’influence des passions obra na qual havia trabalhado desde 1792 e publicou em 1796, revela-se pessimista, descrente de que seja um meio seguro de buscar a felicidade permitir que ela dependa dos outros, como na amizade, ou mesmo quando é buscada nobremente no triunfo e na glória. O sábio deve contentar-se com aquilo que não dependa senão dele mesmo, e encontra a felicidade na serenidade da reflexão, do estudo, e do progresso intelectual.

Educação. Em 1800, Madame de Staël publica sua primeira grande obra : De la littérature considérée dans ses rapports avec les institutions, um trabalho complexo, cuja teoria fundamental era que uma obra literária deve refletir a moral e a realidade histórica do país em que é escrita. Este foi considerado o primeiro livro importante do novo século. Nele ela aborda a evolução da literatura e do pensamento filosófico através de diferentes tipos de sociedades, de governos, e de religiões. Na última parte do livro, como já fizera em Des circonstances actuelles, faz um vaticínio sobre a literatura do futuro e insiste na importância do teatro para a educação do povo, e no valor da eloqüência política no regime republicano.

Feminismo: O pensamento de Madame de Staël com respeito à mulher encontra-se principalmente nos livros Corine, Delphine, no Réflexions, e em um dos capítulos finais do Consideration.

No Delphine, de 1802, o enfoque é o de uma mulher que, conhecendo o mundo e suas misérias, faz uma análise do sofrimento humano – das mulheres em particular –, com muita argúcia e colorido. Constata que a Revolução Francesa causou um retrocesso na condição da mulher sob os aspectos jurídico, social e político; e denuncia o sofrimento a que estão condenadas devido à condição subordinada na família e na sociedade, mesmo nos países de civilização mais avançada e nos níveis mais altos da sociedade. Mas o livro é também rico em pensamentos sobre questões políticas e sociais tais como a imigração, o liberalismo político, a influência inglesa, a superioridade do protestantismo sobre o catolicismo, e o divórcio.

No Corinne, ou l’ltalie, ela mostra o choque entre as mentalidades nórdica e mediterrânea. Inteligente e culta, a personagem Corina, meio italiana, meio inglesa, retrata a mulher que invade um campo naquela época essencialmente masculino: o da cultura. Seu companheiro na viagem pela Itália – um nobre escocês – conhece, pela sua mão, os esplendores do Renascimento italiano. Ele é obrigado a admitir sua superioridade intelectual, a anular sua vontade diante dela, não por superar seu preconceito contra a mulher inteligente, mas obrigado a fazê-lo porque a amava, o que o torna aparentemente fraco e irresoluto. De modo amplo, o livro ocupa-se de questões ousadas tanto da filosofia, como da religião, da história e da política, e também da poesia e das artes.

No Réflexions sur le procès de la Reine (Reflexões sobre o processo da Rainha) de 1793, em sua defesa da raínha, clama contra a humilhação a que Maria Antonieta é submetida, não por crimes que tivesse cometido, mas por ser vítima do preconceito que sempre foi causa dos maus tratos e da infelicidade da mulher, em todos os níveis da sociedade.

No Considérations sur les principaux événements de la Révolution française, publicado pelo filho Auguste depois da sua morte, ela aborda um aspecto especial da posição da mulher, o quanto e porque ela está sujeita a se corromper nos países sob o governo autoritário, onde tudo depende de amizades e favores. A mulher lança mão de todos os seus meios de sedução para influir sobre o poder, em todos os níveis. Não por conta de qualquer ideal, mas para obter posições para si e para seus amigos. Outra de suas armas é a intriga, feita para deslocar adversários e chantagear ministros. “Alguém acredita que, à época de Louis XIV, madame De Montespan, e de Louis XV, Madame Dubarry, tenham recebido alguma recusa dos ministros?” – pergunta.

Para Madame de Staël, papel social da mulher é específico, e nisto ela difere das feministas radicais que vão além da igualdade de direitos para proclamar uma igualdade total entre o homem e a mulher. Para ela, a vida doméstica inspira às mulheres todas as virtudes. Segundo ela, os costumes que são gerados em um governo arbitrário separam a mulher do seu “destino natural” e as transformam em um triste produto da ordem social depravada. E exemplifica: “uma mulher do povo, na Inglaterra, se espelha na rainha que cuida de seu marido e educa suas crianças como a religião e a moral determinam a todas as esposas e a todas as mães.” E conclui : "o verdadeiro caráter de uma mulher e o verdadeiro caráter de um homem somente podem ser conhecidos e admirados nos países livres" (Staël, P.VI, T. II, p. 432-434).

Em abril de 1806 Madame de Staël arrisca-se a ir à França, enquanto Napoleão fazia a guerra da Prússia e da Polônia.. Auguste cursava preparatórios para entrar na Escola Politécnica, - onde Napoleão impedirá que ele se matricule -, e ela desejava acompanhar seus estudos. Para tal necessitava estar a pouca distancia de Paris, violado o limite fixado para seu afastamento da capital. Instalou-se sucessivamente em Auxerre e Rouen e por último, com a conivência do amigo Fouchet, ficou, de fins de novembro a abril de 1807, a apenas doze léguas de Paris, no castelo d’Acosta, próximo a Meulan, onde conclui o Corinne. Constant então lê para ela o seu Adolphe. Ela se vê retratada pejorativamente no romance, e lhe faz uma cena violenta.

Ao retornar ao país, no início de 1807, Napoleão se irrita ao saber que Madame de Staël está novamente próxima de Paris, e ela recebe ordem de partir. Receosa, em abril ela volta para Coppet após passar clandestinamente alguns dias em Paris. É publicado em Paris ao fim de abril ou início de maio, o romance Corinne, ou l’ltalie, que alcança grande sucesso. A personagem Corina, meio italiana, meio inglesa, guia um lorde escocês pela Itália. Leva-o a conhecer os lugares históricos mais sagrados da cidade, tanto da república romana quanto do cristianismo, e os esplendores do Renascimento. O romance está ambientado também nos campos e nas vilas italianas. O personagem Oswald é acusado de franqueza e irresolução, resultante do abalo de suas posições patriarcais por estar submetido a uma mulher inteligente a quem ama e obedece.

O povo lê com interesse as aventuras de de Corinne e lorde Oswald. Mas o livro também levanta comentários jocosos e Constant se sente visado por artigos de críticos que vêm nas duas personagens a própria autora e seu amante.

O grupo de Coppet, no qual liberais e monarquista se misturam, reúne Constant, Juliette Récamier e vários escritores românticos, franceses, alemães, e de outros paises, que vêm confraternizar e trabalhar, escrever, encenar peças e traduzirem suas obras. Recebeu uma visita de alguns meses do  Príncipe Augustus da Prússia. No outono ela escreve o drama Geneviève de Brabant. O preceptor Schlegel publica Comparaison entre la Phèdre d’Euripide et celle de Racine, obra que levanta polêmica na imprensa.

Em dezembro de 1807 viajou para passar um ano em Viena, na corte do Príncipe de Ligne. Enquanto está em Viena, Napoleão concede uma audiência, em Chambéry, a seu filho Auguste de Staël. Ele pede inutilmente ao imperador permissão para a mãe voltar a residir em Paris.

O inverno desse ano é brilhante e festivo para ela, em meio à sociedade vienense. Freqüenta o teatro e se liga ao Marechal de Campo Conde Maurice O’Donnell, de 27 anos, filho do Ministro das Finanças da Áustria, caso que termina ao fim do verão. Vê muito ao príncipe de Ligne e trabalha com ele em uma antologia de textos. O preceptor Schlegel. dá um curso de literatura dramática. Em 22 de maio ela deixa Viena. Por volta de 6 de julho já está em Coppet e começa a escrever o De l’Allemagne. ( filhilho do .

Recebe em Outubro e novembro a Voght, o filantropo, e Oehlenschläger e Zacharias Werner, dramaturgos. Ela encena sua peça La Sunamite. Em fins de novembro ela se instala em Genève. Em meiados de dezembro ela encena sua comédia La Signora Fantastici.

Em 1809, passa o inverno em Coppet. No início de fevereiro, publica com grande sucesso as Lettres et pensées du prince de Ligne. Instala-se de volta em Coppet no fim de abril, para passar o verão. É visitada por Charlotte de Hardenberg, que lhe revela seu casamento secreto com Benjamim Constant, ocorrido em junho do ano anterior, um golpe emocional para ela, mas concorda que o segredo seja mantido.

Em abril de 1810, tendo terminado os três volumes do De l'Alemagne, ela desejou supervisionar a impressão da obra, apesar de ter que violar o limite que lhe fora imposto de 40 léguas de Paris. Ela consegue instalar-se nas vizinhanças de Blois, no antigo castelo de Chaumont-sur-Loire, onde havia residido Catherine de Medicis. O proprietário, Monsieur Le Ray, amigo da família, achava-se em viagem aos Estados Unidos. Lá recebe numerosos amigos, inclusive Constant. Dá início à impressão do De l’Allemagne. Com esta nova obra, que ela havia começado a redigir em 1808 e termina em 1810, queria que os franceses aprendessem tudo sobre a Alemanha: aspectos físicos e culturais, e a sua história. É um estudo profundo dos hábitos alemães, sua literatura e arte, sua filosofia, moral, e religião, no qual ela revela aos seus contemporâneos a Alemanha do movimento Storm und Dran ocorrido de 1770 a 1780. Ela se interessa  pelo conde de Balk, mas a ligação terminará em outubro.

Com o retorno de viagem dos proprietários do castelo de Chaumont, Madame de Stael muda-se, em agosto, para uma casa de fazenda chamada Fosse, colocada à sua disposição por um generoso amigo. Morava na fazenda um soldado, que a serviu com grande prestimosidade. Sua grande amiga, Juliete Recamier, considerada uma das mais belas mulheres da França, veio visitá-la. Os camponeses e moradores da vila próxima vinham ver pelas janelas, curiosos, aquelas pessoas diferentes, que tocavam instrumentos, cantavam, declamavam. Certo dia, tendo ido ao precário teatro em Blois ver a representação da ópera Cinderella, os curiosos a seguiram pela rua, interessados em conhecer a nobre senhora exilada.

Nesse ambiente bucólico, ela termina, em setembro, de corrigir as provas do De l’Allemagne, encerrando 6 anos de trabalho. A obra é impressa, mas não chega a ser distribuída. Germaine fora visitar Mathieu de Montmorency, que possuia um castelo em meio à floresta, a cinco léguas de Blois. Na sua ausência, seus filhos e amigos na fazenda Fosse receberam a notícia de que os livros já impressos haviam sido confiscados na Editora e destruídos pela polícia. O filho Auguste foi avisá-la e ela, retornando a Fosse no dia seguinte, foi obrigada a entregar os manuscritos ao prefeito de Loir e Cher. Mas lhe passou apenas um rascunho, que ele aceitou, enquanto os originais haviam sido escondidos por Auguste. Sua indignação é grande, uma vez que a obra havia recebido aprovação da censura e permissão para ser impressa. Ela pensou em seguir para a Inglaterra, mas foi indiretamente impedida pelo Chefe de Polícia, que proibiu seu embarque por qualquer dos portos do Canal, onde navios americanos poderiam transportá-la para um porto inglês.

Como Corinne, ou De l'Italie, o romance Delphine, ou De l’Allemagne continha uma crítica implícita da política de Napoleão, e ele viu o perigo; considerou o livro anti-Francês. Porém, como os originais e muitos textos de prova escaparam à polícia, o livro pôde ser publicado na Inglaterra em 1813.

O Corinne pode ser considerado o resultado de seu passeio na Italia, assim como os frutos de sua visita à Alemanha estão contidos no De l’Allemagne. Em Delphine, ela se concentrou sobre a sociedade parisiense, seus salões, as dificuldades provocadas pela Revolução aos seus eventos intelectuais e festivos. Corinne, mulher de gênio, poetiza et artista, é ela também vítima de uma sociedade inglesa repressiva. A Inglaterra não é um bom modelo de liberdade social, tanto quanto é um modelo de política constitucionalista. E, como sempre, as mulheres são as primeiras vítimas. Mas a maior parte do romance se passa na Itália. 

Nos primeiros dias de outubro de 1810, ela parte para Coppet; estando a Suíça também sob o domínio de Napoleão, ela é permanente vigiada, e proibida de escrever e publicar qualquer coisa. Napoleão dá ordens, o Prefeito de Genebra se encarrega de cumprir.

Em maio de 1811, por prescrição médica, ela leva Albert, o filho mais novo, para banhos no balneário de Aix, na Savoia, a 20 léguas de Coppet. Ela comunicou ao prefeito essa ausência. Dez dias depois o prefeito enviou um emissário com uma ordem para ela retornar. Assim como fora proibida de embarcar em qualquer porto do canal da Mancha, agora estava proibida de alugar cavalos a qualquer postilhão, para assim impedi-la de deixar a França e viajar para a Inglaterra.

 Schlegel, que por oito anos fora preceptor dos filhos de Madame de Staël, recebe ordem de deixar Genebra e se afastar de Coppet. Seus filhos também foram proibidos de ir sem licença à França, uma punição por terem os dois rapazes tentado falar com Napoleão, em favor de sua mãe. O filho Auguste fica impedido de entrar para a Escola Politécnica.

Em novembro se instala em Genebra, para o inverno. Reencontra o jovem oficial "John" Rocca, de 23 anos, que fora ferido na guerra da Espanha e dispensado dos granadeiros, e que se apega a ele com paixão.

Em fins de fevereiro de 1811, Capelle substitui a Barante pai na prefeitura de Léman. A vigilância sobre ela redobra. O prefeito de Genebra comunica-lhe que não poderia se afastar de Coppet mais de duas léguas. Os amigos de Paris já não a visitavam, para não se indisporem com Napoleão. Ela se vê sem poder receber os amigos, cuidar convenientemente dos filhos, sem poder publicar suas idéias.  Por insistência do preceptor Schlegel, ela pensa em fugir.

No decorrer do ano, Madame de Staël começa a escrever o que seria mais tarde o livro Dix années d’exil; ao mesmo tempo escreve e publica o drama Sapho, les Réflexions sur le suicide, que lembra o personagem de Corina sobre o fundo trágico da mulher genial vítima do amor. Reúne, também,  elementos para um projeto a respeito de Ricardo Coração de Leão, em cuja vida é comumente buscada a origem das idéias liberais. Interessa-se também pela recem divulgada filosofia de Kant, que lhe parece capaz de nutrir a filosofia francesa.

Ela faz planos para fugir da Suíça. Deseja voltar à Inglaterra e examina o mapa da Europa procurando um itinerário que ficasse fora da jurisdição de Napoleão e não vê outra possibilidade senão passar pela Rússia, que já se achava na iminência de ser conquistada pelo Imperador, e de lá alcançar a Suécia, de onde poderia seguir para Londres. Havia o problema do passaporte: como requerer ao imperador Alexandre da Rússia sua entrada no país, sem que o embaixador francês naquele país tivesse notícia de sua viagem?

Um grande lenitivo foi Mathieu de Montmorency aceder em visitá-la. Apesar da proibição de deixar Coppet, ela foi recebê-lo em Orbd, e visita com ele vários pontos de interesse na Suíça, acompanhados do filho Auguste. Quando retornaram, o prefeito de Genebra censurou-a pela desobediência mas prometeu que não comunicaria o fato às autoridades em Paris.

Em 1811 casou secretamente com o oficial suíço, seu amante. Em abril do ano seguinte dá à luz secretamente em Coppet a Louis-Alphonse Rocca.

Os dias que o Senhor de Montmorency passou em Coppet custaram-lhe a perseguição do Imperador. O correio que levou a notícia de que ele estava em Coppet, voltou com a carta de seu banimento da França. Pouco depois o mesmo aconteceria a sua bela amiga Madame Recamier, que ao dirigir-se ao balneário de Aix na Saboia, pretendia deter-se em sua casa para uma visita. Apreensiva com essa notícia, ela enviou um mensageiro encontrar Madame Recamier no caminho para convencê-la a não passar por Coppet, mas a amiga insistiu e Madame de Stael chorou convulsivamente ao abraçá-la quando entrou no castelo. A amiga não escapou ao mesmo golpe que atingirá o Senhor de Montmorency: foi desterrada em razão de sua visita de poucas horas a Madame de Staël. Em agosto, o Senhor de Montmorency deixou Coppet, por insistência de sua família em distanciá-lo da baronesa.

A fuga. Dividida entre o desejo de escapar para a Inglaterra, os riscos da viagem e a possibilidade de nunca poder voltar a sua terra natal e seu circulo de amigos, ela perambulava pelo jardim do castelo imersa em pensamentos. Permanecer na Suiça, pais que estava subjugado pelo Imperador - como de resto quase toda a Europa -, era esperar que o círculo finalmente se fechasse inteiramente e ela terminasse presa ou fosse executada. E se perguntava o que seria de seus filhos se tal acontecesse. Por outro lado, tinha recursos suficientes para a viagem, por longa e dispendiosa que fosse, e também para viver em Londres. Começou a se preparar secretamente para fugir, antes que a última rota de fuga se fechasse. E essa rota exigia uma longa volta pelos confins da Europa.

Rezou uma hora diante do túmulo de seu pai e então sentiu-se convencida da necessidade de partir. Em 23 de maio de 1812, no meio da tarde, deixou o castelo com os filhos, sem levar nenhuma bagagem. Os criados de nada sabiam. Avisou que voltaria à hora do jantar. O filho mais novo permaneceria em Coppet. O filho mais velho e o oficial Roca levavam nos bolsos o dinheiro necessário para os primeiros dias de viagem. Viajaram toda a noite e no dia seguinte, até uma casa de fazenda depois de Berna, onde havia combinado de entrar o preceptor Schlegel, que havia se oferecido para acompanhá-la na fuga.

Depois de acompanhá-la no primeiro dia de viagem, seu amante Roca retornou a Genebra para concluir alguns negócios e voltar a encontrá-la mais à frente.. Também despediu-se do filho mais velho, que estava com a grave responsabilidade de obter do embaixador da Áustria, para os fugitivos, em Berna,  os vistos para a entrada naquele país e retornaria a Coppet. O filho mais novo, Albert, deixaria o castelo para juntar-se à mãe em Viena levando seus criados e a carruagem própria para longas viagens. Somente esta segunda movimentação foi notada pela polícia, mas Madame de Stël já se encontrava fora de seu alcance.

Em  Insbruck visita o túmulo do Imperador Maximiliano. Continuando, chega a Salzburg, capital do bispado de mesmo nome, onde recebe a aterrorizante notícia de que um agente do governo francês havia indagado por uma carruagem vinda de Insbruck na qual viajavam uma senhora e sua filha, e estava na estrada para interceptá-la. Madame de Staël aterrorizada, combinou com Schelegel – igualmente alarmado – que buscaria um esconderijo na cidade, e que ele continuaria com sua filha para a Áustria. Caso fossem alcançados pelo agente, diriam que ela já se encontrava na Áustria e que iam se juntar a ela. Ela esperaria em Salzburg mais alguns dias e depois iria para a Áustria disfarçada de camponesa. Quando iam por em prática o plano, apareceu seu amante Roca na estalagem: era ele o agente! Ele se fizera passar por emissário do governo francês afim de ser atendido com mais rapidez na troca de cavalos e, seguindo por outro caminho, conseguiu chegar antes dela à fronteira da Áustria e inteirar-se de que a a passagem estaria aberta para ela. Imensamente aliviada e feliz, saiu a passear com a filha e os amigos, para conhecer a cidade. Aguardou na Abadia de Molk o filho Albert que deveria juntar-se a ela trazendo outro carro, os criados e sua bagagem.

A Áustria, com sua moeda desvalorizada e os altos impostos determinados por Napoleão, não era o mesmo país feliz que ela visitara quatro anos antes. Ela chegou em Viena a 6 de Junho, e logo solicitou ao embaixador russo um passaporte para a Rússia. Não teve a mesma recepção que da vez anterior em que estivera em Viena, porque os príncipes estavam em uma conferência convocada por Napoleão, em Dresden.

Os primeiros dez dias em Viena passaram desanuviados e apesar da ausência dos soberanos, que estavam... achou-se em meio a uma sociedade cujo modo de vida correspondia ao seu próprio refinamento. Porém a situação mudou depois que o chefe de polícia recebeu instruções a seu respeito: passou a ser vigiada de perto. Era seguida por espiões em qualquer lugar que fosse. Constrangida com aquele acossamento ostensivo, decidiu prosseguir viagem, sem receber os passaportes russos. Relata que deixou um de seus companheiros na capital austríaca, incumbido de alcançá-la mais à frente com os passaportes, assim que os recebesse.

Deteve-se por alguns dias em Brunn, capital da Moravia, e passando por Lanzut, chegou à fronteira russa em Brody. Por toda a Polônia, em cada posto de troca, sua carruagem era assediada por judeus que ofereciam objetos, mendigos barbudos e por soldados ou funcionários que inspecionavam o veículo e os passaportes dos viajantes. Havia em todos os postos policiais o aviso de que seus passos deveriam ser cuidadosamente vigiados. A polícia austríaca enviou também a descrição de Rocca a todos os postos ao longo do caminho com ordem pois havia ordem de prisão para ele devido a ser um militar francês e estar protegendo uma inimiga do Imperador - , e se fosse preso seria recambiado à França e, por ser um oficial, lá seria executado por traição. Ele passou a viajar em separado, disfarçado e com um nome falso.

Madame de Satël ansiava por encontrar na Polônia, em Lanzut, o príncipe Henry Lubomirska e sua esposa, os quais ela havia hospedado em Genebra por vários prazerosos dias. No início de julho chegou ao principado. A visita seria rápida, porque Napoleão havia declarado guerra à Rússia e o avanço do seu exército poderia cortar-lhe o caminho para o Báltico. Essa visita foi traumática. Foi obrigada a admitir a companhia de um policial insolente e grosseiro, e sua irritação foi tão grande que teve um ataque de histeria, e seu filho e e o preceptor Schlegel, ajudados pelos criados tiveram que tirá-la da carruagem e sentá-la à beira da estrada até recuperar-se. Seus sobressaltos não terminaram aí, porque seu amante, o oficial Roca, que viajava em separado e incógnito -já havia se antecipado a ela e, sem saber que ela estava acompanhada de um policial, veio recebê-la junto com o príncipe à entrada do castelo; poderia ter sido preso, se ela não lhe fizesse sinais para afastar-se. Quando entendeu toda a situação o príncipe não apenas aceitou à mesa o repugnante espião, como também proporcionou meios a Rocca de escapar sem ser notado.

Madame de Stael passou uma noite no castelo. O policial tinha ordens inclusive de dormir no mesmo quarto que ela, pois não devia perde-la de vista por um instante sequer. Mas renunciou a esse dever, que com certeza seria impedido por todos de cumprir. Não deu mais nenhum trabalho, depois que a secretária do príncipe fez que os criados o deixassem bêbado.

Apesar de extremamente abalada emocionalmente, Madame de Staël continuou sua viagem, passando por Leopol (Lemberg ou, em Polonês, Lwow), capital da Galicia (a Polônia ocupada pela Áustria, atual Ucrânia), onde obteve permissão para cruzar a fronteira russa (para a então Rússia kievana). Estava livre da perseguição a partir daquele dia que era exatamente 14 de julho, aniversário da Revolução Francesa.

A primeira pessoa com quem pôde conversar na Rússia foi um francês que havia sido funcionário do Banco de seu pai. Agora tratada com consideração e respeito, teve o oferecimento de um médico para ser seu intérprete. Foi informada de que a estrada para  Petersburg estava interrompida pelo avanço do exército francês em território russo e que teria que ir a Moscou para de lá seguir para aquela cidade, ponto de passagem para a Suécia.Seriam mais 200 léguas de viagem, e ela já havia percorrido 1.500. Atravessou a parte russa da Polônia. Em Kiev o grupo visitou catacumbas semelhantes às romanas. O governador da província cumulou os visitantes de gentilezas.

No restante do percurso até Moscou o seu cocheiro russo apressou os cavalos; a rapidez da viagem foi facilitada pelas planuras. Nos dias consumidos nesse trecho, anotou uma infinidade de detalhes a respeito da topografia, da agricultura, dos costumes, do comércio. Planuras de areia, florestas de bétulas, vilazinhas de casas de madeira separadas por grandes distâncias. Também cruzaram com tropas de cossacos com longas lanças nas mãos a caminho da frente de batalha. Em Orel e Toula foram tratados com grande hospitalidade. Foi recebida com apreço pelo governador da província e sua esposa. Para surpresa sua, por estar tão distante da França, pessoas de distinção vinham à estalagem em que estava para cumprimentá-la pela sua obra literária.

Encontrou Moscou em clima de preparação para a resistência às tropas invasoras de Napoleão. No início de agosto lhe foi permitido visitar o Kremlin. Conheceu o arsenal e os aposentos reais dos czares. Subiu ao topo da torre da catedral, de onde pode admirar toda a cidade. De Moscou seguiu, passando por Novogorod, para São Petersburgo, onde estava a família real.  Relata sua felicidade ao ver a bandeira inglesa em navios surtos no porto, para ela um símbolo de liberdade. Frente à sua casa havia uma estátua eqüestre de Pedro I. No dia seguinte à sua chegada recebeu o convite para jantar, de um dos mais ricos comerciantes de São Petersburgo.

Visitou a Igreja de Nossa Senhora de Casan, construída por Paulo I copiando a Igreja de São Pedro, em Roma. De lá foi ao convento de Santo Alexandre Newski. O ministro de assuntos estrangeiros da  Russia, Romanzow, dispensou-lhe muita atenção.O Conde de Orloff e esposa convidaram-na para passar um dia em sua ilha, onde estavam as residências de verão da nobreza e da própria família imperial. Foi recebida pelo Imperador e pela Imperatriz na residência imperial, e visitou a mãe do Imperador no palácio de Taurida. Em fins de agosto, no palácio do príncipe Narischkin participou de uma festa interminável, durante a qual o conde propôs um brinde aos exércitos unidos da Rússia e da Inglaterra e fez disparar canhões de sua artilharia ao momento do brinde. A primeiro de setembro E prestou homenagem a Catherine II visitando o palácio Czarskozelo, de magníficos jardins. Visitou o museu de história natural e o Instituto Santa Catarina, criado pela Imperatriz para a educação de moças, tanto da nobreza quanto do povo.

Em fins de setembro deixou Petersburg e seguiu por terra para Abo (em finlandês, Turku), antiga capital da Finlândia, antes do domínio russo (1809). Grande número de seus novos amigos vieram despedir-se dela, de Schlegel e de seus filhos.Durante o trajeto pela Finlândia dedicou-se a observar com a mesma acuidade e interesse a fisiografia - contrastando os rochedos e montanhas graníticas com as planuras e os pântanos da Rússia - o tipo físico da população e os costumes. Não havia castelos de nobres onde se hospedar: hospedava-se em casa de Pastores da Igreja, como era costume para os viajantes naquele país.

Em Abo embarcou para Stockholm. Foi-lhe de grande apoio o preceptor Schlegel, que tudo fez para dissipar seu horror de navegar entre as ondas gigantescas do Mar Báltico, em um frágil barco, em grande parte com ventos desfavoráveis que atrasaram a travessia. Passando pela ilha de Aland, chegaram a Stockholm, onde ela foi cercada de estima pela sua envergadura intelectual e de respeito por ser baronesa naquele país. Sua primeira preocupação foi utilizar as notas do seu diário de viagem e escrever grande parte do rascunho para o Dez anos de exílio, que pretendia publicar.

Passa quase um ano na capital sueca, de 24 setembro de1812 a junho de 1813. Começa a escrever a vida de seu pai, exaltando suas ações no governo, e narra os episódios dos dias negros da Revolução. Posteriormente ampliou o texto com uma síntese de suas próprias propostas de reforma, inspiradas no sistema político inglês, e alterou o título para Considérations sur les principaux Evénémens de la Revolution Française; mas não chegou a publicá-lo, tarefa de que se encarregaram seu filho e seu genro – o barão Auguste de Staël e o duque de Broglie.

Em janeiro de 1813 publica Réflexions sur le suicide, no qual ela condena algumas idéias que ela havia por muito tempo sustentado. A 18 de junho chega em Londres onde foi recebida com entusiasmo. Seu guia na Inglaterra foi Sir James Mackintosh, um editor Escocês. As observações que fez no país ela incluirá em seu livro Considerations sur Ia Révolution francaise, no qual abordará a vida e as idéias constitucionalistas de seu pai, e mostrará a Inglaterra como um modelo de sistema político para a França. Em Londres ela reencontra o futuro rei Louis XVIII em quem ela vê o homme capaz de realisar a Monarquia Constitutional na França. Porém percebe também a má influência que tem sobre o futuro monarca os arrogantes refugiados franceses que o cercam.

Pouco depois de chegar a Londres tem notícia de que o filho Albert, fora morto em um duelo, na Suécia.

O De l’Allemagne, proibido na França, é editado em francês, em Londres. Edita alguns novos trabalhos e outros mais antigos, que aguardavam publicação: Zulma e três novelas, e o seu Essai sur les fictions.

Em abril de 1814 ocorre a abdicação de Napoleão. Com a queda do Império ela pode retornar a Paris, e se instala em Clichy. Porém estava profundamente decepcionada com o fracasso da Revolução, o período napoleônico e o retorno iminente da monarquia.. Ela aceita os Bourbons a contragosto. Ela lamenta a adesão de Benjamim Constant, mas aprovará o Ato Adicional que ele redigiu é promulgado a 20 de abril. Já em maio reabre em  Paris o seu salão e volta a receber príncipes, ministros e generais. Providencia a tradução do livro Cours de littérature dramatique, do preceptor Schlegel, por Albertine Necker de Saussure, sua prima, e o publica. Porém, com o retorno imprevisto de Napoleão, durante os 100 dias em que consegue escapar aos ingleses e reassumir o governo, está obrigada a novamente deixar Paris. De 19 de julho a 30 de setembro se reinstala em Coppet onde recebe a solidariedade de inúmeros amigos, principalmente ingleses, também obrigados a fugir de Paris. Madame Récamier, hospedada em seu castelo, é cortejada apaixonadamente por Benjamim Constant.

A Restauração. Em setembro de 1815, Madame de Staël adere e apóia aos  Bourbons, após a aventura dos Cem-Dias de Napoleão e sua derrota pelos ingleses em Waterloo.

Em janeiro de 1816, está em Milão, e publica De l’esprit des traductions, e depois vai passar o resto do inverno em Pisa para cuidar de Rocca, que está muito doente. Em Piza, em fevereiro, é realizada a festa do casamento de sua filha Albertine com Achille-Léonce-Victor-Charles,  III Duque de Broglie (1785-1870), estadista liberal e diplomata, cujos pais foram prisioneiros durante o Terror. Seu pai foi guilhotinado em 1794, mas sua mãe havia conseguido escapar e fugir com os filhos para a Suíça. Para o verão daquele ano retorna  Coppet, onde Lord Byron, deixando a Inglaterra magoado com uma experiência matrimonial infeliz, foi encontrá-la. Uma sólida amizade desenvolveu-se entre a escritora e o poeta inglês.

Sua saúde estava declinando. Após a partida do amigo Bayron, ela retornou a Paris para passar o inverno onde encontrou muitos dos antigos monarquistas refugiados da Inglaterra e que não tinham simpatia por suas posições políticas. Apesar disso e da desconfiança com que foi recebida pela nobreza restaurada, ela reabriu seu salão, agora em sua nova casa à rua Royale, para encontro com intelectuais até a primavera.

Em fevereiro de 1817 ficou paralítica e presa ao leito, após um mal súbito durante um baile em casa do duque de Decazes. Em Abril sua saúde agravou-se. Faleceu em Paris na data significativa de 14 de Julho, em 1817, em uma casa onde os amigos se revezavam para assisti-la, na rua Maturins

Ao fundo de um bosque de faias ramadas, por trás do Castelo de Coppet, está o mausoléu em que repousam os restos mortais de Madame Necker, de seu marido e de sua filha Germaine. Ao tempo em que foram sepultados seus pais, eram duas cubas gêmeas de mármore cheias com aguardente de uva (espírito de vinho) em que estavam mergulhados os corpos; o mausoléu foi aberto para receber o sarcófago de sua filha, Germaine de Staël.

II - Pensamento

Madame de Staël não apenas se engajou na luta dos pensadores iluministas de sua época contra a influência da Igreja, mas também trabalhou pela definição dos princípios do Liberalismo tanto na França como na Suíça. Tornou-se um elo entre os adeptos do liberalismo de antes e de depois da Revolução. Advogava a maior liberdade individual possível, e chamou absurda a idéia de proceder de Deus a autoridade entre os homens. Era favorável à desapropriação das terras da Igreja e à abolição de todos os privilégios dos religiosos, que tinha como inimigos da Revolução. Considerava a República uma forma política adequada apenas aos pequenos países, enquanto as grandes nações deveriam ser Monarquias Constitucionais, conforme o modelo inglês. Seu pensamento, tanto político quanto feminista, está expresso principalmente em seu livro Considérations sur les principaux événements de la Révolution française ("Considerações sobre os principais acontecimentos da Revolução francesa") em que mostra os resultados nefastos da Revolução e o retrocesso que impôs ao seu país.

Ela havia retomado em Londres uma idéia antiga: a de escrever um livro sobre a vida política de seu pai. Porém não finalizou onde termina a carreira dele, de homem público. Prosseguiu, elaborando uma crítica do Consulado, do Império, e do início da Restauração. Assim, o que seria apenas a biografia de seu pai, tornou-se no livro Considérations sur les principaux événements de la Révolution française, com a adição da história do grupo liberal que ela indiscutivelmente liderou. Aborda nele os três primeiros anos da Rev,olução, e comenta o desencanto provocado pelas atrocidades do Terror, o fracasso do Diretório, a tirania da era napoleônica e o retorno à monarquia, que via com desconfiança. Termina o livro com uma síntese de suas propostas, inspiradas no sistema político inglês.

Política. Em seu Des circonstances actuelles qui peuvent achever la Révolution, faz um apelo ao bom senso dos franceses para acabar com o terror e restaurar a paz por meio de uma República. Educada como liberal, apesar de estimar Rousseau ela prefere seguir o pensamento de Montesquieu e as idéias constitucionalistas de seu pai, o ministro Necker. Convencida de que o Terror e suas conseqüências eram um desvio da história, não aceitou que se apagassem as luzes do Iluminismo. Suas idéias sobre a liberdade lhe valeram perseguições do poder e lhe custaram muito caro inclusive com respeito a sua vida íntima. Em sua opinião, a arte da política está em direcionar a opinião pública para um objetivo e depois apoiar-se nela no momento certo.

Ela pede o respeito ao que chama “três elementos dados pela natureza”, a deliberação, a execução e a conservação, necessários para garantir aos cidadãos sua liberdade, fortuna e uso tranqüilo de suas faculdades, e os recompensar pelo seu trabalho.

Reconhece, embora minimize, que, devido a que os nobres apóiam o despotismo como salvaguarda de seus privilégios, esta pode ser uma razão contra uma Câmara dos Nobres (pares do reino)

Religião e Estado. A grande questão de sua época foi a separação entre o Estado e a Igreja, a extinção do poder do Segundo Estado constituído pelos clérigos (O Primeiro Estado eram os nobres, e o Terceiro Estado os homens comuns). A religião deveria ser apenas o culto íntimo, sem envolvimento de interesses políticos. E em sua opinião, o dia em que os franceses deixassem de unir o que Deus havia separado – a religião e a política –, apesar do clero perder o seu poder e os seus privilégios, a nação teria uma religiosidade mais autêntica e sincera. Ela se indigna com a doutrina do Direito Divino dos reis, expressa no famoso dogma: todo poder vem de Deus; e quem resiste ao poder resiste ao próprio Deus. Ela contra argumenta lembrando que nos evangelhos está escrito “dê a Deus o que é de Deus e dê a César o que é de César”, uma evidência de que Cristo desejava que a religião que ele anunciava fosse considerada inteiramente estranha à política. E cita mais o trecho: “meu reino não é deste mundo”. Esse falso direito, de governar sem limites de poder, resultava na opressão permanente do povo e na corrupção do caráter do cidadão que tinha que desenvolver artifícios, os mais abjetos e escusos, para se colocar a salvo da arbitrariedade do governo.

O cristianismo trouxe de fato a liberdade, a justiça aos oprimidos, o respeito pelos que sofrem, e a igualdade perante Deus, da qual a igualdade perante a Lei é apenas uma imagem imperfeita. Mas as formas de organização social não podem dizer respeito à religião senão quanto à manutenção da liberdade e da justiça para todos, e da moral de cada um; o resto pertence à ciência deste mundo.

A liberdade. Para ela, os adversários da liberdade em todos os países – salvo alguns trânsfugas de entre os intelectuais – em geral são aqueles inimigos do conhecimento e das idéias; a necessidade de um governo livre – a monarquia constitucional para os grandes países, e a república independente para os pequenos –, é tão evidente que ela não acredita que alguém possa não reconhecer esta verdade. Mas há aqueles que ficaram amedrontados com a liberdade trazida pela Revolução, e que havia resultado nos crimes perpetrados por seus líderes. Outros pensam que aceitar uma idéia filosófica, como a do amor à liberdade, implica tornar-se ateu. Há, ainda, os que consideram de mau gosto meter-se na política: dizem que o povo escolhe sempre mal. 

 A felicidade. No De l’influence des passions obra na qual havia trabalhado desde 1792 e publicou em 1796, revela-se pessimista, descrente de que seja um meio seguro de buscar a felicidade permitir que ela dependa dos outros, como na amizade, ou mesmo quando é buscada nobremente no triunfo e na glória. O sábio deve contentar-se com aquilo que não dependa senão dele mesmo, e encontra a felicidade na serenidade da reflexão, do estudo, e do progresso intelectual.

Educação. Em 1800, Madame de Staël publica sua primeira grande obra : De la littérature considérée dans ses rapports avec les institutions, um trabalho complexo, cuja teoria fundamental era que uma obra literária deve refletir a moral e a realidade histórica do país em que é escrita. Este foi considerado o primeiro livro importante do novo século. Nele ela aborda a evolução da literatura e do pensamento filosófico através de diferentes tipos de sociedades, de governos, e de religiões. Na última parte do livro, como já fizera em Des circonstances actuelles, faz um vaticínio sobre a literatura do futuro e insiste na importância do teatro para a educação do povo, e no valor da eloqüência política no regime republicano.

Feminismo: O pensamento de Madame de Staël com respeito à mulher encontra-se principalmente nos livros Corine, Delphine, no Réflexions, e em um dos capítulos finais do Consideration.

No Delphine, de 1802, o enfoque é o de uma mulher que, conhecendo o mundo e suas misérias, faz uma análise do sofrimento humano – das mulheres em particular –, com muita argúcia e colorido. Constata que a Revolução Francesa causou um retrocesso na condição da mulher sob os aspectos jurídico, social e político; e denuncia o sofrimento a que estão condenadas devido à condição subordinada na família e na sociedade, mesmo nos países de civilização mais avançada e nos níveis mais altos da sociedade. Mas o livro é também rico em pensamentos sobre questões políticas e sociais tais como a imigração, o liberalismo político, a influência inglesa, a superioridade do protestantismo sobre o catolicismo, e o divórcio.

No Corinne, ou l’ltalie, ela mostra o choque entre as mentalidades nórdica e mediterrânea. Inteligente e culta, a personagem Corina, meio italiana, meio inglesa, retrata a mulher que invade um campo naquela época essencialmente masculino: o da cultura. Seu companheiro na viagem pela Itália – um nobre escocês – conhece, pela sua mão, os esplendores do Renascimento italiano. Ele é obrigado a admitir sua superioridade intelectual, a anular sua vontade diante dela, não por superar seu preconceito contra a mulher inteligente, mas obrigado a fazê-lo porque a amava, o que o torna aparentemente fraco e irresoluto. De modo amplo, o livro ocupa-se de questões ousadas tanto da filosofia, como da religião, da história e da política, e também da poesia e das artes.

No Réflexions sur le procès de la Reine (Reflexões sobre o processo da Rainha) de 1793, em sua defesa da raínha, clama contra a humilhação a que Maria Antonieta é submetida, não por crimes que tivesse cometido, mas por ser vítima do preconceito que sempre foi causa dos maus tratos e da infelicidade da mulher, em todos os níveis da sociedade.

No Considérations sur les principaux événements de la Révolution française, publicado pelo filho Auguste depois da sua morte, ela aborda um aspecto especial da posição da mulher, o quanto e porque ela está sujeita a se corromper nos países sob o governo autoritário, onde tudo depende de amizades e favores. A mulher lança mão de todos os seus meios de sedução para influir sobre o poder, em todos os níveis. Não por conta de qualquer ideal, mas para obter posições para si e para seus amigos. Outra de suas armas é a intriga, feita para deslocar adversários e chantagear ministros. “Alguém acredita que, à época de Louis XIV, madame De Montespan, e de Louis XV, Madame Dubarry, tenham recebido alguma recusa dos ministros?” – pergunta.

Para Madame de Staël, papel social da mulher é específico, e nisto ela difere das feministas radicais que vão além da igualdade de direitos para proclamar uma igualdade total entre o homem e a mulher. Para ela, a vida doméstica inspira às mulheres todas as virtudes. Segundo ela, os costumes que são gerados em um governo arbitrário separam a mulher do seu “destino natural” e as transformam em um triste produto da ordem social depravada. E exemplifica: “uma mulher do povo, na Inglaterra, se espelha na rainha que cuida de seu marido e educa suas crianças como a religião e a moral determinam a todas as esposas e a todas as mães.” E conclui : "o verdadeiro caráter de uma mulher e o verdadeiro caráter de um homem somente podem ser conhecidos e admirados nos países livres" (Staël, P.VI, T. II, p. 432-434).

Madame de Satël ansiava por encontrar na Polônia, em Lanzut, o príncipe Henry Lubomirska e sua esposa, os quais ela havia hospedado em Genebra por vários prazerosos dias. No início de julho chegou ao principado. A visita seria rápida, porque Napoleão havia declarado guerra à Rússia e o avanço do seu exército poderia cortar-lhe o caminho para o Báltico. Essa visita foi traumática. Foi obrigada a admitir a companhia de um policial insolente e grosseiro, e sua irritação foi tão grande que teve um ataque de histeria, e seu filho e o preceptor Schlegel, ajudados pelos criados tiveram que tirá-la da carruagem e sentá-la à beira da estrada até recuperar-se. Seus sobressaltos não terminaram aí, porque seu amante, o oficial Roca, que viajava em separado e incógnito -já havia se antecipado a ela e, sem saber que ela estava acompanhada de um policial, veio recebê-la junto com o príncipe à entrada do castelo; poderia ter sido preso, se ela não lhe fizesse sinais para afastar-se. Quando entendeu toda a situação o príncipe não apenas aceitou à mesa o repugnante espião, como também proporcionou meios a Rocca de escapar sem ser notado.

Madame de Stael passou uma noite no castelo. O policial tinha ordens inclusive de dormir no mesmo quarto que ela, pois não devia perde-la de vista por um instante sequer. Mas renunciou a esse dever, que com certeza seria impedido por todos de cumprir. Não deu mais nenhum trabalho, depois que a secretária do príncipe fez que os criados o deixassem bêbado.

Apesar de extremamente abalada emocionalmente, Madame de Staël continuou sua viagem, passando por Leopol (Lemberg ou, em Polonês, Lwow), capital da Galicia (a Polônia ocupada pela Áustria, atual Ucrânia), onde obteve permissão para cruzar a fronteira russa (para a então Rússia kievana). Estava livre da perseguição a partir daquele dia que era exatamente 14 de julho, aniversário da Revolução Francesa.

A primeira pessoa com quem pôde conversar na Rússia foi um francês que havia sido funcionário do Banco de seu pai. Agora tratada com consideração e respeito, teve o oferecimento de um médico para ser seu intérprete. Foi informada de que a estrada para  Petersburg estava interrompida pelo avanço do exército francês em território russo e que teria que ir a Moscou para de lá seguir para aquela cidade, ponto de passagem para a Suécia.Seriam mais 200 léguas de viagem, e ela já havia percorrido 1.500. Atravessou a parte russa da Polônia. Em Kiev o grupo visitou catacumbas semelhantes às romanas. O governador da província cumulou os visitantes de gentilezas.

No restante do percurso até Moscou o seu cocheiro russo apressou os cavalos; a rapidez da viagem foi facilitada pelas planuras. Nos dias consumidos nesse trecho, anotou uma infinidade de detalhes a respeito da topografia, da agricultura, dos costumes, do comércio. Planuras de areia, florestas de bétulas, vilazinhas de casas de madeira separadas por grandes distâncias. Também cruzaram com tropas de cossacos com longas lanças nas mãos a caminho da frente de batalha. Em Orel e Toula foram tratados com grande hospitalidade. Foi recebida com apreço pelo governador da província e sua esposa. Para surpresa sua, por estar tão distante da França, pessoas de distinção vinham à estalagem em que estava para cumprimentá-la pela sua obra literária.

Encontrou Moscou em clima de preparação para a resistência às tropas invasoras de Napoleão. No início de agosto lhe foi permitido visitar o Kremlin. Conheceu o arsenal e os aposentos reais dos czares. Subiu ao topo da torre da catedral, de onde pode admirar toda a cidade. De Moscou seguiu, passando por Novogorod, para São Petersburgo, onde estava a família real.  Relata sua felicidade ao ver a bandeira inglesa em navios surtos no porto, para ela um símbolo de liberdade. Frente à sua casa havia uma estátua eqüestre de Pedro I. No dia seguinte à sua chegada recebeu o convite para jantar, de um dos mais ricos comerciantes de São Petersburgo.

Visitou a Igreja de Nossa Senhora de Casan, construída por Paulo I copiando a Igreja de São Pedro, em Roma. De lá foi ao convento de Santo Alexandre Newski. O ministro de assuntos estrangeiros da  Russia, Romanzow, dispensou-lhe muita atenção.O Conde de Orloff e esposa convidaram-na para passar um dia em sua ilha, onde estavam as residências de verão da nobreza e da própria família imperial. Foi recebida pelo Imperador e pela Imperatriz na residência imperial, e visitou a mãe do Imperador no palácio de Taurida. Em fins de agosto, no palácio do príncipe Narischkin participou de uma festa interminável, durante a qual o conde propôs um brinde aos exércitos unidos da Rússia e da Inglaterra e fez disparar canhões de sua artilharia ao momento do brinde. A primeiro de setembro E prestou homenagem a Catherine II visitando o palácio Czarskozelo, de magníficos jardins. Visitou o museu de história natural e o Instituto Santa Catarina, criado pela Imperatriz para a educação de moças, tanto da nobreza quanto do povo.

Em fins de setembro deixou Petersburg e seguiu por terra para Abo (em finlandês, Turku), antiga capital da Finlândia, antes do domínio russo (1809). Grande número de seus novos amigos vieram despedir-se dela, de Schlegel e de seus filhos.Durante o trajeto pela Finlândia dedicou-se a observar com a mesma acuidade e interesse a fisiografia - contrastando os rochedos e montanhas graníticas com as planuras e os pântanos da Rússia - o tipo físico da população e os costumes. Não havia castelos de nobres onde se hospedar: hospedava-se em casa de Pastores da Igreja, como era costume para os viajantes naquele país.

Em Abo embarcou para Stockholm. Foi-lhe de grande apoio o preceptor Schlegel, que tudo fez para dissipar seu horror de navegar entre as ondas gigantescas do Mar Báltico, em um frágil barco, em grande parte com ventos desfavoráveis que atrasaram a travessia. Passando pela ilha de Aland, chegaram a Stockholm, onde ela foi cercada de estima pela sua envergadura intelectual e de respeito por ser baronesa naquele país. Sua primeira preocupação foi utilizar as notas do seu diário de viagem e escrever grande parte do rascunho para o Dez anos de exílio, que pretendia publicar.

Passa quase um ano na capital sueca, de 24 setembro de1812 a junho de 1813. Começa a escrever a vida de seu pai, exaltando suas ações no governo, e narra os episódios dos dias negros da Revolução. Posteriormente ampliou o texto com uma síntese de suas próprias propostas de reforma, inspiradas no sistema político inglês, e alterou o título para Considérations sur les principaux Evénémens de la Revolution Française; mas não chegou a publicá-lo, tarefa de que se encarregaram seu filho e seu genro – o barão Auguste de Staël e o duque de Broglie.

Em janeiro de 1813 publica Réflexions sur le suicide, no qual ela condena algumas idéias que ela havia por muito tempo sustentado. A 18 de junho chega em Londres onde foi recebida com entusiasmo. Seu guia na Inglaterra foi Sir James Mackintosh, um editor Escocês. As observações que fez no país ela incluirá em seu livro Considerations sur Ia Révolution francaise, no qual abordará a vida e as idéias constitucionalistas de seu pai, e mostrará a Inglaterra como um modelo de sistema político para a França. Em Londres ela reencontra o futuro rei Louis XVIII em quem ela vê o homme capaz de realisar a Monarquia Constitutional na França. Porém percebe também a má influência que tem sobre o futuro monarca os arrogantes refugiados franceses que o cercam.

Pouco depois de chegar a Londres tem notícia de que o filho Albert, fora morto em um duelo, na Suécia.

O De l’Allemagne, proibido na França, é editado em francês, em Londres. Edita alguns novos trabalhos e outros mais antigos, que aguardavam publicação: Zulma e três novelas, e o seu Essai sur les fictions.

Em abril de 1814 ocorre a abdicação de Napoleão. Com a queda do Império ela pode retornar a Paris, e se instala em Clichy. Porém estava profundamente decepcionada com o fracasso da Revolução, o período napoleônico e o retorno iminente da monarquia.. Ela aceita os Bourbons a contragosto. Ela lamenta a adesão de Benjamim Constant, mas aprovará o Ato Adicional que ele redigiu é promulgado a 20 de abril. Já em maio reabre em  Paris o seu salão e volta a receber príncipes, ministros e generais. Providencia a tradução do livro Cours de littérature dramatique, do preceptor Schlegel, por Albertine Necker de Saussure, sua prima, e o publica. Porém, com o retorno imprevisto de Napoleão, durante os 100 dias em que consegue escapar aos ingleses e reassumir o governo, está obrigada a novamente deixar Paris. De 19 de julho a 30 de setembro se reinstala em Coppet onde recebe a solidariedade de inúmeros amigos, principalmente ingleses, também obrigados a fugir de Paris. Madame Récamier, hospedada em seu castelo, é cortejada apaixonadamente por Benjamim Constant.

A Restauração. Em setembro de 1815, Madame de Staël adere e apóia aos  Bourbons, após a aventura dos Cem-Dias de Napoleão e sua derrota pelos ingleses em Waterloo.

Em janeiro de 1816, está em Milão, e publica De l’esprit des traductions, e depois vai passar o resto do inverno em Pisa para cuidar de Rocca, que está muito doente. Em Piza, em fevereiro, é realizada a festa do casamento de sua filha Albertine com Achille-Léonce-Victor-Charles,  III Duque de Broglie (1785-1870), estadista liberal e diplomata, cujos pais foram prisioneiros durante o Terror. Seu pai foi guilhotinado em 1794, mas sua mãe havia conseguido escapar e fugir com os filhos para a Suíça. Para o verão daquele ano retorna  Coppet, onde Lord Byron, deixando a Inglaterra magoado com uma experiência matrimonial infeliz, foi encontrá-la. Uma sólida amizade desenvolveu-se entre a escritora e o poeta inglês.

Sua saúde estava declinando. Após a partida do amigo Bayron, ela retornou a Paris para passar o inverno onde encontrou muitos dos antigos monarquistas refugiados da Inglaterra e que não tinham simpatia por suas posições políticas. Apesar disso e da desconfiança com que foi recebida pela nobreza restaurada, ela reabriu seu salão, agora em sua nova casa à rua Royale, para encontro com intelectuais até a primavera.

Em fevereiro de 1817 ficou paralítica e presa ao leito, após um mal súbito durante um baile em casa do duque de Decazes. Em Abril sua saúde agravou-se. Faleceu em Paris na data significativa de 14 de Julho, em 1817, em uma casa onde os amigos se revezavam para assisti-la, na rua Maturins

Ao fundo de um bosque de faias ramadas, por trás do Castelo de Coppet, está o mausoléu em que repousam os restos mortais de Madame Necker, de seu marido e de sua filha Germaine. Ao tempo em que foram sepultados seus pais, eram duas cubas gêmeas de mármore cheias com aguardente de uva (espírito de vinho) em que estavam mergulhados os corpos; o mausoléu foi aberto para receber o sarcófago de sua filha, Germaine de Staël.

 

Rubem Queiroz Cobra            
Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia

Lançada em 18/12/2005

 

 

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Direitos reservados. Para citar esse texto: Cobra, Rubem Q. - Madame de Staël. Cobra Pages - www.cobra.pages.nom.br, Internet, 2005. ("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)

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Rubem Queiroz Cobra