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Estética

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Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

Estética é, para mim, a convergência da ciência e da filosofia no estudo da atividade pela qual o artista se propõe, através de tentativas de manipulação de materiais, a gerar tanto em si mesmo, como criador, quanto no outro, como espectador, sentimentos de excelência na apreciação de sua obra, independentemente de qualquer fim prático que a obra possa ter. A obra capaz de despertar essa emoção é a obra de arte e o sentimento de excelência despertado em função dela é o sentimento estético do belo.

O objeto estético não é qualquer um, decorrendo necessariamente daí que algo existe nele que o habilita esteticamente. Para obter esse efeito emocional o objeto precisa reunir alguns sinais capazes de fazer dele um estimulador para as matrizes genéticas e configurações associativas que estarão envolvidas. Ele contem uma infra-estrutura estimuladora dirigida a certa categoria de matriz associativa, cuja fisiologia ele é capaz de afetar. Porque, para que seja objeto de apreciação o objeto estético, ao ser conhecido, de alguma forma se sintoniza com certos padrões de receptividade e de reação fisiológica do sistema associativo. Tal alteração fisiológica provoca um sentimento e induz o sistema associativo a ver o objeto na ilusão de valor que é a objetivação. O objeto é primeiro um infra-estimulador e depois um objeto de valor do qual se almeja a posse. Com essas duas características ele é um viabilizador para um sentimento de excelência que é exigência básica do sistema vital corpo-espírito.

O juízo estético é expressão do prazer na sintonia associativa, e portanto lhe é posterior, o que vai inverter o postulado de Kant, de que o juízo estético é anterior ao prazer e o determina. Essa sintonização ou ressonância não é consciente e portanto não representa por si mesma um juízo. Antes de emitir qualquer juízo, o indivíduo já experimenta aquilo que é a emoção natural diante do belo e o objeto já é para ele causa de prazer.

O sentimento estético tem, portanto, algo que não depende de experiência, mas de adequação a padrões inatos. De modo que a noção de belo ou feio, na emoção estética, não vem diretamente do objeto estético, mas de uma predisposição que ele encontra em nós para apreciá-lo, - numa relação entre seus sinais e uma fisiologia associativa em nós que procura por eles. Por isso o sentimento que a obra de arte desperta no seu apreciador pertence primeiro ao universo do próprio apreciador, varia conforme algo presente nele que o predispõe para certo humor, e esse sentimento coincidirá ou não com o sentimento pretendido pelo artista.

É um argumento em favor de que o processo de pensar é realmente um processo mecânico, o fato de que é possível testar o seu funcionamento por meio da reversão do seu curso. A Estética nos mostra com clareza essa possibilidade. O processo tanto pode seguir do objeto conhecido para um pensamento e um sentimento, como pode também começar na alteração fisiológica que gera um sentimento para o qual se busca um objeto. Essa reversão implica que a alteração fisiológica, inclusive a artificialmente provocada, faz o pensamento criar idealmente, e procurar o objeto recipiente para o sentimento suscitado.

O processo é bastante claro com a música, por exemplo. A música é emulante para diferentes atitudes e valorizações. O artista, estruturando os sons, pode obter em si mesmo e nos ouvintes sentimentos muito variados, que corresponderão respectivamente ao ritmo, melodia, etc., conforme se trate de uma música lenta ou de ritmo "quente". Ao afetar estruturas e mudar a fisiologia na mente como um agente físico, a música faz o sujeito procurar objetos de afeição, torna o sujeito "romântico" ou dá-lhe brios, o silencia em atitude de respeito, etc.

O que a música faz é precisamente isto: modifica as condições fisiológicas por meio do impacto das ondas sonoras e neste sentido trabalha como uma droga estimulante ou paralisante. Predispõe o indivíduo a buscar objetos de intimidade de cuja posse ou relação imaginada resultam para ele sentimentos de autovalor e excelência. A música "romântica", as marchas militares, os hinos cívicos e religiosos, atuam criando classes diferentes de fisiologias estimulando condições químico-fisiológicas geradoras de sentimentos, independentemente da existência de valores concretos.

Assim como a métrica na poesia, o modo como a música ganha melodia e impõe um ritmo de movimento do corpo, e o fato mesmo de estar estruturada em semitons estão a nos dizer algo a respeito da estrutura genética das matrizes associativas, que devem ter certas constantes físicas a serem procuradas.
Igualmente nas composições plásticas, no desenho e na pintura, e em todo tipo de designe, a disposição dos traços, como linhas angulosas, linhas verticais, linhas horizontais e linhas sinuosas , também o são, incluindo aí a posição dos objetos e as cores. A maioria dos povos escreve da esquerda para a direita e é considerado mais aprazível a imagem que representa movimento originado da esquerda. No teatro, em geral os atores entram no palco pela esquerda do espectador. Porém, se o diretor quer ressaltar a beleza de uma atriz, é comum que a faça entrar no palco pelo lado direito do espectador, para que ela mostre o lado esquerdo do seu ros. Isto porque de longa data se sabe que um rosto é mais atraente quando mostra a face esquerda. Os pintores renascentistas já exploravam esse fenômeno estético pintando as figuras exibindo a face esquerda.

As frequências e as proporções têm a mesma influência sobre o observador, geralmente sem que ele se aperceba disto. Recentemente se cogitou nos meios científicos que a simetria dos traços fisionômicos é responsável pela beleza facial, e que também a constante de Fibonetti possa ter alguma influência estética importante.

A arte do artista consiste em criar e explorar objetos ricos em infra-estimuladores estéticos. Seria importantíssimo para as artes identificá-los e precisá-los cientificamente.

A psicologia da arte sempre esteve consciente da existência de vetores físicos no processo da criação artística. Ela examina, por exemplo, as tensões que certas formas despertam e a necessidade de equilíbrio interno das formas. Em um quadro, o sentido de profundidade pode ser diferente, conforme a dimensão no plano frontal estiver em relação com a dimensão do aprofundamento, e isto vai influir no sentimento que a obra desperta no sujeito. Quanto maior a representação de profundidade em relação ao plano frontal, maior o sentimento de curiosidade e de interesse pela intimidade despertados no espectador. O sentimento estético tem, portanto, algo que não depende de experiência, mas de adequação de planos e linhas a padrões genéticos de estimulação.

Porém, as configurações associativas tanto no artista, quanto no espectador, têm sua parte subconsciente. O artista não pode dizer o que exatamente pretendeu transmitir com sua obra ou distinguir o fator infra-estimulador chave de sua iniciativa artística, embora possa sentir o humor que o compele ao trabalho.  Reciprocamente, a mesma obra de arte pode alcançar significados diferentes para diferentes espectadores que terão sentimentos diferentes, até mesmo antagônicos, em relação a ela.

Existem, porém, padrões de receptividade e reação fisiológica no cérebro humano comuns a todas as pessoas, donde uma certa universalidade de valores nos aspectos gerais do que seja o belo e o feio, nos objetos de desejo, nas expressões e impressões artísticas em geral.

 O universal, no juízo estético, decorre tão somente da generalidade das matrizes emocionais orgânicas próprias do homem, de sua universalidade genética.

O homem, na própria realização social da sua condição humana, é um objeto estético, um para o outro. É uma forma banal de experiência estética a decoração do lar, receber amigos, vestir-se, o modo estudado de andar. O carisma é também uma forma banal de objetivação estética. É essa capacidade em uma pessoa de ser objeto estético cultural para outra, o que não deve ser confundido com atração sexual. O indivíduo carismático tem maneiras que são parâmetros a imitar, e sua aprovação é sempre valorizada em extremo, evidentemente uma objetivação feita pelo seu admirador.

Como nos sonhos, a criação estética faz sentido na associação das emoções que cada traço e cor despertam no observador e não, necessariamente na fidelidade dos sinais visuais ao desenho natural. Embora os pintores impressionistas desejassem apenas libertar a arte da retratação fiel própria da pintura clássica, o êxito do movimento proveio da maior amplitude de projeção emocional que a nova pintura criou.

Rubem Queiroz Cobra
Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia

Lançada em 06/12/2009
NOTA: Esta página desenvolve o conteúdo do capítulo 15 do livro
Filosofia do Espírito (1997), do mesmo autor.

Direitos reservados. Texto impresso original depositado no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional. 
Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Estética. Site www.cobra.pages.nom.br, INTERNET, Brasília, 2010

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