Ercília Nogueira Cobra: Culta e Destemida Modernista Brasileira

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Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

INTRODUÇÃO

Ercília Nogueira Cobra chocou a sociedade brasileira com sua obra sobre a exploração sexual e trabalhista da mulher, publicada em várias edições na década de vinte, uma delas confiscada pela polícia. Além da divulgação de sua obra, esta página pretende salientar a filiação do seu pensamento à corrente modernista de seu tempo, oferecer alguns elementos de genealogia e apresentar, para ser investigado, um possível novo detalhe relativo a sua biografia.

Ao escolher qual dos livro de Ercília Nogueira Cobra colocaria na Internet para difundir seu pensamento, preferi o mais polêmico e radical, que também é o mais sucinto, intitulado Virgindade Anti-Higiênica – Preconceitos e Convenções Hipócritas.Porém, ao transcrever essa obra de Ercília não estava aprovando sem restrições as suas ideias nem pretendendo fazê-las parte do espírito de minhas páginas. Meu propósito foi apenas fornecer a pesquisadores um elemento importante para a história dos movimentos modernista e feminista no Brasil. Me pareceu justo, no entanto, alertar para o significado do título, de uso raro com o sentido psiquiátrico com que ela o empregou. Em sua época, “higiene” aplicava-se a uma condição psicológica sã, e não simplesmente ao asseio do corpo. Higiene Mental é a ciência de manter a saúde psíquica e prevenir o desenvolvimento de psicoses, neuroses, e outras desordens mentais. Inclui todas as medidas tomadas para promover e preservar a saúde mental individual e coletiva. Aparentemente o termo surgiu quando Clifford Whittingham Beers, um psicótico norte-americano recuperado, escreveu suas memórias e iniciou um movimento em favor dos doentes mentais. Criou um “Comitê Internacional para Higiene Mental” em 1919 e promoveu o primeiro “Congresso Internacional de Higiene Mental” em 1930, em Washington. O auge da sua atividade e da sua propaganda coincidiu, portanto, com a época em que Ercília escreveu seu livro. Muitos entusiastas do movimento acreditavam que a higiene mental poderia conduzir a sociedade à paz e eliminar as guerras.

Surgiu no Brasil, em 1922, – contemporânea portanto da Semana de Arte Moderna – a Liga Brasileira de Higiene Mental. Essa entidade, criada, por Gustavo Riedel, logo reuniu numerosos discípulos em seu laboratório, primeiramente dirigido pelo jovem especialista francês Alfred Fessard (1900) e, a seguir, por Plínio Olinto e Brasília Leme Lopes. A Liga organizou um Seminário Brasileiro de Psicologia, com reuniões semanais de estudo, editando também uma revista de cunho técnico e promovendo as Jornadas Brasileiras de Psicologia, de convocação anual (AS CIÊNCIAS NO BRASIL, vol. II. Editora. UFRJ, Rio de Janeiro, 1994 (Reimpressa da 1ª. Ed. 1955).

Educada e culta, Ercília teria com certeza conhecimento desse emprego da palavra “higiene” como termo significando medidas para um estado saudável do espírito. Ela destaca que higiene significa “asseio, tanto physico como moral” (p. 45). Que ela segue essa linha de pensamento fica demonstrado também pela sua citação das palavras do médico Jean Marestau que diz “São as moças virgens e as viúvas que fornecem o maior contingente de histéricos” e dá as estatísticas do famoso hospital La Salpetrière onde, de 1.726 doentes mentais, 1.276 eram moças (p. 117). Porém, os leitores de Ercília, ignorantes dessa acepção do termo “higiene” com significado de saúde mental, teriam interpretado a expressão “anti-higiênica” no título de seus livros como referindo-se ao asseio das partes íntimas da mulher. Hoje, por ter caído em desuso a expressão “Higiene mental”, seu título volta a causar espécie aos menos avisados.

Ercília dá provas de cultura e de convívio social de alto nível. Cita pensadores de vanguarda de seu tempo, como salienta sua biógrafa Maria Lúcia de Barros Mott (1986). Apesar de se fixar em São Paulo, foi com frequência ao Rio de Janeiro, provavelmente estar com a irmã Estela, e lá frequentou “as nossas celebres corridas…” (p. 81) em dia de gala no Hipódromo. Afirma frequentar o teatro: “Na passada estação theatral do Rio, fui tres vezes ouvir Pierre Magnier declamar o Cyrano de Bergerac”; Porém confesso que sahi depois do primeiro ato do “Maître des Forges” (p.101).

NOTA DO AUTOR: Conheço apenas esta frase de Cyrano de Bergerac: «Que dites vous? C’est inutile? Je le sais! / Mais on ne se bat pas dans l’espoir du succès / Non, non, c’est bien plus beau lorsque c’est inutile! (…) N’importe: je me bats! je me bats! je me bats!» (Um tanto mal traduzida, seria: Que dizes? É inútil? Eu sei! Mas não se luta com esperança de sucesso. Não, não, é muito mais belo quando é inútil (lutar)! (..) Não importa: eu luto! eu luto! eu luto!). Não terá sido esse estimulante trecho o mesmo que emocionou Ercília? Para ressaltar o valor que da às palavras de Cirano de Bergerac ela as coloca em contraste com o desprezível “Maître des Forges”.

ÉPOCA

Na década de 20, quando Ercília escreve os seus livros, o Brasil vivia tempos de agitação e aspirações revolucionárias várias. A consequente repressão política é marcada pela censura da produção intelectual; é a “situação anormal que atravessamos”, que ela registra à p. 9, na Nota da Segunda Edição, do polêmico “Virgindade Anti-hygienica”, do qual cito as páginas. É uma época marcada também pela lembrança de alguns recentes flagelos naturais. Em 1915 ocorreu uma forte seca no Nordeste e, nos últimos meses de 1918, a mortal epidemia mundial da gripe espanhola. Em pouco mais de um mês, segundo as estatísticas, só no Distrito Federal fez a epidemia 18 000 vítimas.

Para o quadriênio de 1918-1922 foi eleito Francisco de Paula Rodrigues Alves e, com o falecimento deste, eleito Epitácio da Silva Pessoa em 1919. Em março de 1920 irrompe no Rio um movimento operário, reprimido energicamente ao cabo de dois dias. Em Janeiro de 1921 declaram-se em greve os trabalhadores marítimos e logo depois os operários da construção civil. Em novembro de 1921 surgiu o núcleo inicial do partido Comunista, que cresceu rapidamente, ensejando que em 1922, fosse realizado em Niterói o congresso de fundação do partido com a presença de delegados de várias cidades do país. Em julho do mesmo ano revolta-se a guarnição do forte de Copacabana, cujos participantes são lembrados como “Os 18 do Forte”; e logo a Vila Militar e a Escola de Guerra declaram-se em rebelião, esperando a adesão de forças revoltosas das guarnições de São Paulo e Mato Grosso. Decretou o governo o estado de sitio; fez efetuar muitas prisões e, agindo energicamente, conseguiu manter a ordem constitucional e com grandes festas se comemorou o centenário da Independência em 7 de setembro. Em novembro assumiu o governo Artur Bernardes que governou em regime de “estado de sítio” justificado pelas revoltas daquele ano no Rio de Janeiro, e pelas que depois ocorreram em 1923 no Rio Grande do Sul e 1924 em São Paulo. Os militares envolvidos nesses levantes formaram a Coluna Prestes que a partir do Paraná iniciou uma grande marcha pelo interior do país, pregando a luta contra as oligarquias políticas dominantes de Minas e São Paulo, detentoras do poder no país.

Depois de um período de grande agitação política transmitiu Artur Bernardes em 1926, a presidência da República, a Washington Luís Pereira de Sousa, antigo presidente do Estado de São Paulo, eleito para o período 1926-1930. Porém, a sucessão presidencial havia criado a crise fatal á primeira República. As candidaturas de Júlio Prestes de Albuquerque e Getúlio Vargas dividiam o mundo político numa maioria situacionista, maciça, e a oposição menos numerosa, porém mais aguerrida. Logo os próceres da Aliança Liberal entrariam a conspirar, preparando o movimento de outubro de 1930.

ERCÍLIA E O MODERNISMO

Além dos dramáticos eventos políticos, outros mais ocorreram em 1922, ano simbólico por marcar o centenário da independência da nação brasileira. Naquele ano, o inconformismo dos militares, pelo qual falaram os seus fuzis, teve por paralelo o inconformismo intelectual, cuja arma foi a Semana de Arte Moderna realizada em São Paulo, movimento de revolta contra o atraso dos padrões culturais conservadores das elites brasileiras.

A Semana da Arte Moderna teve três dias de promoções: 13, 15 e 17 de Fevereiro de 1922, em que jovens intelectuais influenciados por Graça Aranha, apresentaram em conjunto suas ideias de vanguarda. As conferencias realizaram-se no teatro Municipal de São Paulo. Seguiram-se mostras de arte de Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Victor Brecheret. Apresentaram-se a pianista Guiomar Novaes e o compositor Heitor Villa-Lobos.

Ficaram famosos esses e os principais outros modernistas: Oswald de Andrade, romancista e ensaísta; Mário de Andrade, pesquisador da música popular brasileira e crítico social no seu Pauliceia Desvairada (1922), em Amar verbo intransitivo (1927), – no qual critica a hipocrisia sexual paulistana -, e em Macunaíma, o Herói sem nenhum caráter (1928); o poeta Manuel Bandeira e Ronald de Carvalho. Alguns não participaram propriamente daqueles eventos, mas eram reconhecidamente da corrente, como a celebrada pintora Tarsila do Amaral, e é entre esses contemporâneos do modernismo, não participantes das mostras mas reconhecedores do movimento, e radical e atrevidamente combativos pela reforma cultural do país, que eu coloco Ercília Nogueira Cobra.

Já conhecia os livros de Ercília e dei-me conta da sua relação com o modernismo ao reunir material para minhas aulas sobre Filosofia no Brasil, no Seminário Maior Arquidiocesano de Brasília. E ninguém que tenha entendido o espírito do movimento modernista e lido os livros de Ercília contemporâneos da Semana de Arte Moderna deixará de ver essa ligação óbvia. Ela foi constada também pelas pesquisadoras americanas Susan C. Quinlan e Peggy Sharpe que talvez tenham sido as primeiras a trazer a público convicção igual à minha, no livro por elas publicado em 1996, edição patrocinada pela Universidade Federal de Goiás. No entanto, essa identidade de ideias e essa contemporaneidade de seus livros com o movimento modernista a própria Ercília indica à página 108 da edição do seu Virgindade Anti-Higiênica Preconceitos e Convenções Hipócritas onde diz: “hoje, em pleno torvelinho do modernismo…” o que, – além do caráter revolucionário e estimulante de sua obra -, demonstra que estava conscientemente imbuída dos ideais e da coragem do movimento. Ela é uma modernista não apenas pelo exotismo do seu estilo literário desabusado, objetivo e direto, mas exatamente pela sua proposta de uma revolução dos costumes no sentido da modernização psicológica e cultural do país, característica própria daquele movimento, e que ela faz respeitante à questão sexual e a situação da mulher em sua época.

Na verdade, enquanto os notáveis do modernismo viviam o clima de entusiasmo algo arrogante que marcou o movimento, e colhiam louros no campo da literatura e, com a sua proclamada musa, também no campo das artes, – deliciando com doce escândalo a elite chocada e ao mesmo tempo divertida com a novidade -, era Ercília Nogueira Cobra que tomava a peito meter a mão em uma das verdadeiras chagas do atraso do povo e da ignorância dos conservadores opulentos: a escravidão doméstica e sexual da mulher.

É compreensível também que seu nome não fosse citado pelas outras grandes figuras modernistas porque seu livro fora condenado e queimado pela Polícia paulista, acoimado de pornográfico.

OBRA

Disse, a respeito de Ercília Nogueira Cobra, o colunista Flávio Pinto Vieira na Seção Cultura de um jornal do Rio de Janeiro, datado de 28 de dezembro de 1980: “Foi através de um levantamento bibliográfico sobre a mulher brasileira, realizado pela Fundação Carlos Chagas, que se “descobriu” a sua obra pioneira em torno da emancipação da mulher”. Aludia com certeza ao material levantado por Lúcia Mott, que daria origem a uma biografia de Ercília Nogueira Cobra, rica de interessantes detalhes, publicada pela Folha de São Paulo de 7 de julho de l984, p. 38, e nos Cadernos da Fundação Carlos Chagas, de Ribeirão Preto, SP., em 1986 (p. 89-104).

O Dicionário de Autores Paulistas (Melo, 1954) cita uma edição do Virgindade Inútil – Novela de uma revoltada, feita pela Editora Anchieta, São Paulo, sem data, com 175 páginas. Não tem data, mas é minha opinião que este Novela de uma revoltada tenha sido o primeiro livro de Ercília e que seu lançamento coincidiu com a “Semana de Arte Moderna”, mas teria passado desapercebido. Nele ela coloca, sob forma de romance e na boca do personagem principal, Cláudia, o seu pensamento sobre a natureza feminina e a exploração social e sexual da mulher.

Porém, Lúcia Mott descobriu apenas uma edição de 1927 do Novela de uma revoltada, feita pela própria Autora. Isto a fez tomar como o primeiro livro de Ercília o Virgindade Anti-Higiênica – Preconceitos e convenções hipócritas, editado por Monteiro Lobato, em 1924 que, tudo me leva a crer, foi o segundo.

Como de resto praticamente tudo que foi produzido na época pelos modernistas, o Preconceitos e Convenções editado por Lobato em 1924, conforme citação da biógrafa, provocou escândalo. Por faltar à romancista incipiente amigos no mundo das letras, ela não teve qualquer defesa e seu livro foi condenado como literatura pornográfica e seus exemplares apreendidos pela polícia. Então, uma segunda edição foi publicada pela própria autora.

Parece que Lobato, solidário, cedeu as pranchas da primeira edição à autora, pois a minha cópia da segunda edição tem as mesmas dimensões e aspecto descritos por Lúcia Mott para os exemplares da primeira, e deve ter sido rodada na mesma oficina da “Monteiro Lobato & Cia. Editores”. Contem porém algumas páginas acrescentadas em composição diferente na forma e tamanho dos tipos. São um artigo e um preâmbulo inseridos no início, e uma “Conclusão” inserida na última prancha, antes do último parágrafo da composição antiga. O artigo acrescentado ao livro destinava-se a publicação nos jornais, explica a autora, porém nenhum quis publicá-lo, reclamou indignada, verberando acerbamente as autoridades pelo absurdo da censura e apreensão da primeira edição da obra. Resultou que a segunda edição tem 127 páginas, contra as 116 que Lúcia Mott diz ter a edição apreendida. Escrito antes da reforma simplificadora da ortográfica decretada em 1931, abundam palavras com consoantes duplas, e outras formas de grafia hoje em desuso.

A biógrafa cogita que esta segunda edição de Virgindade Anti-Hygiênica – Preconceitos e Convenções Hypócritas seria de 1927. mas dificilmente uma gráfica teria conservado todo esse tempo as 116 pranchas de composição do livro de 1924, pois implicaria na imobilização de centenas de milhares de tipos necessários a novas composições, além da ocupação de espaço. A data deve ser o mesmo ano de 1924, data que L. C. Melo dá em seu dicionário para essa edição feita pela autora. A folha de rosto do livro possui uma anotação feita a mão, no rodapé indicando a data 1924.

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Minha opinião de que Novela de uma revoltada tenha aparecido antes do Virgindade Anti-Hygiênica – Preconceitos e Convenções Hypócritas tem várias razões. A primeira, é o fato deste conter, em sua última página, um convite ao leitor para ler o Novela de uma revoltada. Então o Novela foi publicado antes, evidentemente, da primeira e da imediata segunda edição do Preconceitos e Convenções.

A Novela de uma revoltada tem seus quadros finais em um transatlântico e em um teatro, em Paris. Na narrativa da viagem, a autora introduz um novo personagem, Cecília, uma sábia mulher que conquista a admiração de Cláudia. O discurso feminista antes colocado nas palavras e pensamentos de Claudia, agora está na boca de Cecília, um nome obviamente escolhido para representar Ercília, a autora. Cláudia indaga por que Cecília não fizera, antes de embarcar, a pregação de suas ideias, ao que Cecília responde que não a fizera por não acreditar que fosse ouvida. Não seriam de esperar essas palavras, se Ercília já houvesse publicado algum livro antes deste romance. Ercília de fato viajou a Paris, conforme ela mesma afirma, e isto em 1920, de acordo com sua biógrafa.

Outra razão diz respeito à abordagem do tema. Parece mais provável que ele fosse apresentado primeiro vazado em um romance, uma forma didática mais adequada a alcançar o público que a forma de libelo documental, pleno de citações eruditas, que tem o Preconceitos e Convenções.

A referência às duas peças encenadas no Teatro Municipal do Rio é também, de certo modo, um indício de que o texto do Preconceitos fora recentemente escrito. A Companhia Dramática “Théatre de la Porte de Saint Martin de Paris” apresentou Cyrano de Bergerac, com Pierre Magnier, nos dias 8, 12, 14 e 15, e Le Maitre des Forges nos dias 21 e 26 de agosto de 1923 (Brito Jr., 1971). Como a referência às apresentações diz terem acontecido na temporada passada, ou seja, no máximo um ano antes, fica evidente que o livro confiscado fora escrito recentemente, sem a longa gestação de uma primeira obra, e que, portanto, o Novela de uma revoltada deve tê-lo precedido e fora publicado no calor da onda modernista que explodira em 1922.

Além das citadas edições Ercília publicou o Virgindade Inútil e anti-higiênica – Novela libelística contra a sensualidade egoísta dos homens. Foi impresso pela Societé d’Éditions Oeuvres des Maitres Celèbres com endereço 75, Rue Caumartin, Paris, infelizmente sem indicar a data. No alto da capa, acima do nome da autora, consta “Colleção do Livro Raro e Exquisito” o que faz supor que o livro fazia parte de algum projeto editorial brasileiro ou português, o que é uma questão a esclarecer. Neste volume, como o título já indica, Ercília reuniu as duas obras anteriores, o romance Virgindade Inútil, que acredito ser de 1922, e o libelo Virgindade anti-Higiênica, de 1924, como I e II parte. Nesta edição, s/data, o português é moderno, indicando que foi impresso após a reforma ortográfica de 1931.

As obras de Ercília e suas sucessivas edições, – modificada a ordem em que as edições sem data são apresentadas na cronologia de M. L. B. Mott, – seriam então:

  1. Virgindade Inútil – Novela de uma revoltada. Editora Anchieta, São Paulo, s/data, 175 p. (referido por L. C. Melo). (Deve ser a primeira obra, considerada a resposta da personagem Claudia à interpelação de Cecília, a bordo de algum dos transatlânticos franceses da Rota de Ouro e Prata, em 1920, em sua viagem à França. Cláudia indaga por que Cecília não fizera, antes de embarcar, a pregação de suas ideias, ao que Cecília responde que não a fizera por não acreditar que fosse ouvida).
  2. Virgindade Anti-higiênica – Preconceitos e convenções hipócritas. (O livro confiscado, do qual a Autora fará logo uma segunda edição).
  3. Virgindade Anti-higiênica – Preconceitos e convenções hipócritas. Monteiro Lobato & Cia Editores, 1924, 116 p. (referido por M. L. B. Mott) (Deve ser a terceira obra, pois denuncia o confisco da primeira edição: “Foi apreendido o livro Virgindade Anti-Hygiênica” (p. 6); “Eis a segunda edição do meu livrinho. A primeira foi prohibida pela polícia” (p.9).
  4. Virgindade Inútil e Anti-higiênica – Novela libelística contra a sensualidade egoísta dos homens. “Societé d’Éditions Oeuvres des Maitres Celèbres”, Coleção do Livro Raro e Esquisito, Paris s/ data.( Meramente reúne o primeiro livro “Virgindade Inútil” e o segundo “Virgindade Anti-Higiênica” sob a mesma capa. Editado em português moderno, é necessariamente posterior à reforma ortográfica decretada em 1931 e provavelmente é de 1932. (Referido por M. L. B. Mott, seria o mesmo de que tenho cópia.

Finalmente, as citadas autoras americanas, Quinlan e Sharpe integraram em seu livro citado, a transcrição dos dois livros de Ercília Nogueira Cobra. Ao final de cada obra estão 76 notas de comentários feitos ao Novela de uma Revoltada, e 81 notas relativas ao Preconceitos e Convenções Hipócritas, nas quais dão as traduções das citações em francês, corrigem os erros de ortografia cometidos tanto em francês quanto em português pela autora, e apresentam notas biográficas e explicativas sobre cada autor citado.

NOTA GENEALÓGICA

Coincidentemente, há um vínculo de parentesco de Ercília com a estrela maior do movimento modernista, José Oswald de Andrade (1890 a 1954). Este parentesco é lembrado por Lúcia Mott como informação recebida de Antônio Cândido e que posso detalhar, valendo-me da Genealogia Paulistana, de Silva Leme.

Oswald de Andrade, o mais destacado dos promotores da Semana de Arte Moderna, era seu primo em segundo grau. Nasceu e morreu em São Paulo. Rico, comunista, consta que perdeu a fortuna na quebra da Bolsa de 1929. Causou-se seis vezes. Criou vários movimentos e deixou uma obra extensa: ensaios de estética e política, manifestos, memórias, poemas e romances. Escrevia com humor e ironia, em linguagem telegráfica, metafórica, marcada por neologismos de sua própria lavra, e outra inovações. A estrela feminina do movimento, Tarsila do Amaral, aquela artista de vanguarda, – a “pintora louca” que desafiando o preconceito em relação à mulher liberada trocaria de marido várias vezes -, foi uma das mulheres de Oswald de Andrade, com quem ele casou em 1922, tendo vivido juntos até 1929.

Segundo o genealogista Luís Gonzaga da Silva Leme (1903, vol. VI, p. 392) e minha própria pesquisa (Távora e Cobra, 1999), o Capitão Domingos Rodrigues Cobra, – filho de Bernardo da Cunha Cobra, um português natural de Almada -, residiu em Baependi e foi casado com Caetana Nogueira de Lemos. O Capitão e Caetana tiveram, entre outros, o filho Capitão Antônio Gomes Nogueira Cobra, nascido em Baependi em 1784, que foi casado com Maria Custódia de Meireles Freire. Esse casal teve, entre outros, os filhos Antônio Marciano, que viveu em Baependi (I), e Antônia Nogueira Cobra (II), que viveu em São Paulo.

I. Antônio Marciano Nogueira Cobra teve o filho Major Luís Joaquim Nogueira de Meireles Cobra, casado com Maria Amélia Rosa do Carmo, falecida a 19 de agosto de 1919. Maria Amélia era amiga dos livros, e possivelmente influiu induzindo aspirações à carreira literária em sua descendência, como foi o caso de Amador Carneiro Nogueira Cobra, o pai de Ercília. Maria Amélia deixou um dito lembrado pelos familiares: “Quem quiser ter ideias novas, leia livros velhos”.

O pai de Ercília, o citado Amador, nascido em Baependi em 1861, formou-se em Direito em São Paulo em 1888. Em uma petição sua de dezembro de 1882, conservada no Arquivo da Faculdade de Direito de São Paulo, diz que “alterou e aumentou o cognome depois de prestar em Ouro Preto o exame de Inglês”. Assinava-se antes, Amador Carneiro Cobra. Foi promotor em Mococa, S. Paulo, fazendeiro naquela localidade e depois em São José do Rio Pardo, e deputado ao Congresso (hoje Assembleia) paulista.

Já em 1888 Amador Cobra integrava, como orador, ao lado do Capitão Antônio Penha de Andrade, presidente, e Antero Pereira de Magalhães, vice-presidente, a Comissão Executiva do Partido Republicano do município de Baependi, do qual foram fundadores, e que teve como seu órgão oficial um pequeno jornal, A Propaganda (A. P. Magalhães, 1976, p. 199).

José Alberto Pelúcio, diz em seu livro Baependi (1942, p. 260): “Amador Cobra, a quem já nos referimos, foi outro baependiano que trabalhou esforçadamente pelo triunfo da República em terras brasileiras. Desde seus tempos acadêmicos abraçou com ardor os princípios do novo regime que seria implantado no país”.

De sua pena é o livro Esboços Democráticos. Prefaciando-o, escreveu Campos Sales: “…este trabalho revela um intuito perfeito e brilhantemente definido e visa claramente a propaganda democrática…”

Seu livro foi publicado ainda sob o Império, à época em que era acadêmico de Direito em São Paulo (H. Gravatá 1976), impresso na Tipografia Carioca, no Rio de Janeiro. Faleceu em São José do Rio Pardo em 1907; foi casado com Jesuina Ribeiro, falecida em 1935 na mesma cidade, filha de Raimundo Estelino Ribeiro da Silva e de Mariana Ribeiro. Desse consórcio nasceram cinco filhos: Estela; Ercília; Paulo Brandão Nogueira Cobra, falecido em São José do Rio Pardo em 1971, e que foi casado com Isabel Martins de Almeida; Noêmia Nogueira Cobra, casada com Antônio Corrêa Leite; Marina, falecida solteira em 1970, e Maria Amélia Nogueira Cobra, falecida em 1970, que foi casada com Manuel Ribeiro, com o qual teve, entre outros filhos, a conhecida advogada e deputada federal Zulaiê Cobra.

II. Antônia Nogueira Cobra, acima citada filha do Capitão Antônio Gomes, foi casada com Hipólito José de Andrade, negociante em São Paulo, com quem teve o filho José Oswaldo Nogueira de Andrade, vereador na Câmara Municipal de São Paulo, casado com Inês Inglês de Souza, filha do desembargador Inglês de Souza. Desse filho teve o neto Oswald de Andrade, o famoso integrante do movimento modernista brasileiro, e um dos organizadores da “Semana de Arte Moderna” de 1922.

UM EPISÓDIO A INVESTIGAR

Segundo tradição de família, Ercília revoltou-se contra o tratamento dispensado à mulher ainda na juventude, quando teria tido a oportunidade de dar um concerto de piano no Teatro Municipal, por recomendação do seu professor, e o pai proibiu-a de fazê-lo. Mais tarde, falecido o pai, e perdida a residência na Capital, recusou-se a viver na fazenda com a mãe e os irmãos. Deixou a família em companhia da irmã Estela, que era a mais velha, e ambas viveram uma vida cheia de percalços em São Paulo, inicialmente às voltas com a polícia pelo fato de serem menores.

Ercília era tão apegada a sua irmã e companheira que, em 1929, fez, em favor dela, um testamento dos bens que lhe coubessem por herança (M.L.B. Mott, op. cit., p.98). Seriam ela e sua irmã Estela as duas irmãs de sobrenome Cobra que estiveram algum tempo em Vitória, Espírito Santo, por volta de 1930. Delas me deu notícia a historiadora espírito-santense Maria Stella de Novaes, já falecida. Escreveu ela: “Conheci, porém, duas jovens que, há 30 ou 40 anos, aqui estiveram: – uma alta e magra; outra gorducha e menor porte – Residiram pouco tempo aqui. A menor, muito bonita e rosada, casou-se com um rapaz de ótima família italiana, e ainda existente – Comerciantes. O casamento durou pouco, apesar da filha que nasceu aqui – O marido não suportou o gênio forte da mulher…”.

Se, quanto ao gênio, poderia bem tratar-se de Ercília, e quanto ao tipo físico? Segundo seus familiares, não era alta, e se, como suspeita sua biógrafa, estaria calcada nela própria o personagem Claudia, do seu romance, então ela se auto descreve à p. 88 (Ed. parisiense) como “De pequena estatura, mas de proporções perfeitas, morena de olhas verdes, era tida como linda mulher.”

Estela faleceu no Rio de Janeiro em 1934 e Ercília viveu no Rio Grande do Sul entre 1934 e 1938 (M.L.B. Mott, p.99)

BIBLIOGRAFIA

Brito Jr., Edgard de Chaves, Memórias e Glórias de um Teatro. Cia. Editora Americana, Rio de Janeiro, 1971

Cobra, Ercília Nogueira, Virgindade Inútil e Anti-Higiênica – Novela libelística contra a sensualidade egoísta dos homens. “Societé d’Éditions Oeuvres des Maitres Celèbres”, Paris, s/data.Cobra, Ercília Nogueira, Virgindade Anti-Higiênica – Preconceitos e convenções hipócritas.. Reedição em português moderno, s/data.

Gravatá, Hélio, Contribuição Bibliográfica para a História de Minas Gerais. Rev. do Arq. Públ. Mineiro, Vol. XXVII, p. 173-375, Belo Horizonte, 1976.

Leme, Luiz Gonzaga da Silva, Genealogia Paulistana. Vol. VI, Ed. do autor, S. Paulo, 1903.

Magalhães, Antero Pereira de, Memória Histórica da Propaganda Republicana no Sul de Minas. Rev. do I. H. G. de M. Gerais, Vol. XI, p. 191-210, B. Horizonte, 1964.

Melo, Luis Correia de, Dicionário de Autores Paulistas. Comissão do IV Centenário, S. Paulo, 1954.

Mott, Maria Lúcia de Barros, Biografia de uma Revoltada: Ercília Nogueira Cobra. Fundação Carlos Chagas. Cad. Pesq., São Paulo (58): 89-104, agosto 1986.

Pelúcio, José Alberto, Baependi. Ed. do Autor, Baependi, 1942.

Quinlan, Susan e Sharpe, Peggy, Visões do Passado Previsões do Futuro – Duas modernistas esquecidas. Univ. Federal de Goiás e Ed. Tempo Brasileiro Ltda. Goiás e Rio de Janeiro, 1996.

Távora, M.J. e Cobra, R. Q., Um Comerciante do Século XVIII. Ed. Athalaia, Brasília, 1999.

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 11-09-2000

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – Ercília: culta e destemida modernista brasileira. COBRA PAGES: www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2000.